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"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." (Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo")
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Mensagem

Análise doi poema Tabacaria

De Duarte em 22/03/2004 08:05:25 a partir de 193.126.46.252-
INTRODUÇÃO:
1ªestrofe ( v.1-4) : funciona como uma espécie de Introdução/ Proposição em que se indicam os 'motivos'- base de todo o poema, as suas 'linhas de força':
oposições TUDO / NADA
SONHAR / FAZER
QUERER / FAZER
- a que se vem acrescentar a oposição FORA (janelas) / DENTRO (quarto- cadeira).
DESENVOLVIMENTO:
Tais contradições vão ser desenvolvidas em vários momentos, correspondentes aos dois espaços fora / dentro e aos movimentos de deslocação espacial do Sujeito poético.
1ºmomento (v.5-32) : « Janelas do meu quarto....dais para o mistério de uma rua » - As janelas- espaço que permite olhar para fora, a rua, o real objectivo- ; este real é bem distinto do EU pensante- no entanto, é visto como mistério , inacessível , impossivelmente real, desconhecidamente cert(a); a partir daí, referência à morte, que « põe humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens» - retomando-se, no verso 13, a oposição inicial TUDO / NADA.
Na estrofe que se segue, e até ao v.31, há um momento de reflexão do EU, que repetidamente se define em situação de negatividade, disforia : vencido, lúcido, perplexo e dividido entre dois reais:
.o real objectivo- a Tabacaria como coisa real por fora
.o real subjectivo- a sensação de que tudo é sonho como coisa real por dentro
Confirma-se assim que janelas/rua/tabacaria são o pólo objectivo, perante o qual o EU se manifesta perplexo, dividido entre duas lealdades (ao real objectivo / ao real subjectivo) ; enquanto quarto / cadeira são o pólo subjectivo, o do sonho.
No verso 25 afirma-se Falhei em tudo, como consequência e síntese amarga dessa divisão do EU - retomando-se de imediato a oposição tudo / nada.
2ºmomento (v.32-71) - Regresso ao quarto/cadeira (dentro)- longo momento de interiorização/reflexão.
Em 'crescendo' emocional, a constatação do insucesso existencial: "Não, não creio em mim " (v.43). Maior consciência da oposição realidade / sonho, fora / dentro, tudo / nada: « O mundo é para quem nasce para o conquistar / e não para quem sonha que pode fazê-lo, ainda que tenha razão » (v.50-51). Ele, - « génio para si mesmo sonhando» - como tantos outros, tem sonhado mais do que Napoleão, tem sido mais fraterno do que Cristo, tem filosofado mais do que Kant...MAS...no que respeita ao fazer, será sempre « o da mansarda », «o que cantou a cantiga do Infinito numa capoeira » , « o que ouviu a voz de Deus num poço tapado' » . Mais ainda: ele é um dos muitos, um de NÓS ( passagem ao plural) : « Escravos cardíacos das estrelas / Conquistámos todo o Universo antes de sair da cama» ; antes de constatarmos que o mundo (o real objectivo) é alheio, opaco, impenetrável [a ideia da opacidade do real vem de longe, desde o Pessoa de Paúis... ao de Coração oposto ao mundo, do poema NATAL, e ao Campos de OPIÁRIO.]
ENTREVÊ-SE UMA SOLUÇÃO: COMER CHOCOLATES ( discurso parentético dos v.v.72 a 79): trata-se de uma espécie de 2º'motivo' musical, - diz M.S.Lourenço , em contraponto à lucidez da reflexão - que bom seria ter a inocência da pequena suja e como ela comer chocolates ! - [cf.com a vontade de permuta, nos poemas ortónimos da Ceifeira que canta canta sem razão ou do Gato instintivo que brinca na rua/como se fosse na cama ] Só que ele pensa... e perdeu já a inocência - a custo preservada pelo Mestre Caeiro.
Trata-se de um tema recorrente em Pessoa: dor de pensar, de ser lúcido, que faz de nós roupa suja atirada fora, como o papel de prata de chocolate (que,na realidade, é de estanho). Resta o desprezo sem lágrimas que nos concedemos.
Novo parênteses / invocação: talvez uma figura feminina pudesse consolar...(vv. 87-94) . Mas sem esperança- o fracasso é total e visível na metáfora- - imagem: « Meu coração é um balde despejado.» (vv.95-97)
3ºmomento (v.98-145) - Nova deslocação espacial- regresso à janela - reforço do que já se sabia.-« Vejo com nitidez o real » - mas « tudo isto me pesa como uma condenação» , «Tudo isto é estrangeiro » (opaco, impenetrável).
Referências igualmente ao já realizado e constatação do falhanço total: Fiz de mim o que não soube / E o que podia fazer de mim não o fiz (v.v.111-112)
[ Hipótese de 'redenção'- a poesia: « Essência musical dos meus versos iinúteis» ,
« pórtico partido para o Impossível » - só que, como diz, o canto é 'inútil' e o pórtico 'partido'.]
Nova entidade surge agora: o Dono da Tabacaria - presença real que chega à porta: dois Eus que se olham frente a frente e que, afinal, se reconhecem idênticos no destino, na morte, na inutilidade (dos versos ou da tabuleta)- Atinge-se no verso 145 o clímax .
4ºMomento (v.146-160) - anticlímax: « E a realidade plausível cai de repente em cima de mim» (v.147)- Momento de 'euforia'- « Semiergo-me, enérgico-Vou tencionar escrever estes versos « ; mas falsa energia: « Acendo um cigarro» - refúgio na evasão [como em OPIÁRIO].
Regresso ao espaço interior- a cadeira.
C.CONCLUSÃO (v.161-167)
De novo o espaço Janela/fora. O real objectivo -Tabacaria / Dono / Esteves «sem metafísica »' ; tentativa de identificação e comunicação do EU com o real- ligação pelo aceno e pelo chamamento - « Adeus ó Esteves !» - mas tentativa em vão, frustrada: « E o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança.../ E o dono da tabacaria sorriu... »
Entre o Eu e o Real só o breve aceno de simpatia e o sorriso(enigmático?)do dono da Tabacaria.
Esta Conclusão funciona assim como uma espécie de remate ou 'coda' musical, como diz M. S. Lourenço no artigo já citado.
. Uma vez mais: estruturação rigorosa, marcada pelos movimentos de deslocação referidos [em Ode Marítima era marcada pelos movimentos do volante].
E uma vez mais: amargura, o sentimento de estranheza, de perplexidade, de divisão, a dor de ser lúcido, a incapacidade de agir, a falta de energia interior para concretizar o infinito que se sonha ou quer (abulia) e insucesso, fracasso existencial. ( O poema representa "UMA NADIFICAÇÃO DO TUDO", segºJosé Augusto Seabra-Fernando Pessoa ou o Poetodrama.)
É assim o Campos da 3ªfase / face - mais sensitivo que sensacionista - um Campos que derramará a sua sensibilidade magoada em poemas belíssimos como ANIVERSÁRIO, DOBRADA À MODA DO PORTO, POEMA EM LINHA RECTA, SONETO JÁ ANTIGO, CRUZOU POR MIM... que confessará «Merda. Sou lúcido !» e ter uma «imensa pena de si mesmo»- «Coitado do Álvaro de Campos sentado na poltrona da sua melancolia!» (poema Cruzou por mim...-podes lê-lo nos anexos deste capítulo.)Todos-e não só Tabacaria-, dos mais belos poemas

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