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01/04/2006 02:26
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A indústria de TI precisa ir além das fronteiras nacionais

Por Carlos E. Nogueira
As constantes iniciativas do atual governo no sentido de defender a criação de uma legislação que determine a adoção prioritária de software livre nas compras do setor público têm como pano de fundo a meta de incentivar o desenvolvimento da indústria nacional de software e o aumento do volume de exportações de soluções tecnológicas.
No mercado externo existem diversos exemplos de ações estruturadas e focadas em determinados segmentos da economia muito bem-sucedidas, sendo um dos mais conhecidos o indiano. Estimativas do Gartner Group apontam que, até o início de 2005, um em cada dez empregos americanos tende a migrar para o continente asiático, o que já vem gerando certo pânico entre os cidadãos americanos. Mas a Índia é só um exemplo, existem outros países asiáticos e latino-americanos, como o Brasil, que poderiam conquistar ou ampliar seu filão na oferta de soluções e de "outsourcing" para EUA e Europa.
O Brasil tem um grande número de software houses e fábricas de software com competência, habilidade e criatividade de sobra para aventurar-se no exterior. A experiência nacional, especialmente no desenvolvimento de soluções para os mercados financeiro, governo e para o "back office" corporativo em geral, é muito grande e respeitada. Faltam, porém, incentivos governamentais consistentes e a definição de um plano de ações para conquistar clientes internacionais.
Já existem iniciativas brasileiras sérias neste sentido como é o Projeto Brains, coordenado pela Tecsoft (Centro de Tecnologia de Software de Brasília), com mais de 16 empresas associadas; e da Brasscom, que reúne CPM, Stefanini, Itautec, Datasul e Politec. Outra resolução nessa direção foi tomada recentemente pela Cobra Tecnologia, uma das mais antigas empresas de tecnologia do país, que agora começa a operar na Europa. Nesses casos e em outros que não convém citar agora, a idéia é promover a oferta estruturada de aplicativos e serviços ao mercado externo.
Um dos desafios para isto é convencer os compradores da qualidade e da eficácia dos produtos, assim como da excelência dos serviços ofertados, principalmente porque perdemos para os países asiáticos em preço e em certificações internacionais. Outro fator é que nossa mão-de-obra não está suficientemente qualificada, o que faz com que deixe a desejar em termos de produtividade e agilidade no desenvolvimento. São detalhes que contam muitos pontos a favor ou contra em um mundo globalizado.
Entraves, entretanto, não faltam. As empresas brasileiras estão mais voltadas para o consumo interno, por isso poucas têm porte adequado ao atendimento do mercado internacional, especialmente na área de serviços. Por aqui, ainda existe preferência declarada por soluções importadas, que muitas vezes exigem adequação às demandas das companhias nacionais. As fontes de financiamento não são as ideais. O conhecimento das reais necessidades dos consumidores americanos e europeus é escasso. Para completar, até agora, faltava decisão e vontade política, assim como planejamento estratégico para avançar além das fronteiras de nosso território. Vale ressaltar que uma das medidas governamentais fundamentais para o incremento das exportações e da economia como um todo é o investimento na qualidade da educação oferecida aos cidadãos, desde a mais tenra infância até os cursos de mestrado e doutourado. Quanto melhor for a formação do nosso povo maior será a nossa competitividade internacional. Foi com preparação educacional e profissional que os países asiáticos, incluindo a Índia, conseguiram se tornar verdadeiros "tigres asiáticos" no comércio mundial.
Segundo o secretário-adjunto de política de informática e tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia, Artur Pereira Nunes, em entrevista concedida à mídia, as cinco maiores empresas indianas que oferecem "outsourcing" faturam com exportações mais de quatro vezes o volume de vendas das dez maiores companhias nacionais do setor, que são voltadas para o mercado interno. As quatro líderes indianas totalizaram em vendas para o mercado externo no ano passado US$ 3,05 bilhões. Isto em um mercado mundial avaliado em US$ 712 bilhões em 2001 e que deve alcançar US$ 2,1 trilhão em 2006. O nosso governo pretende exportar US$ 2 bilhões em software e serviços de TI até 2008.
Observando o cenário atual, a expectativa governamental é, à primeira vista, utópica, porque mesmo que o software livre se dissemine por todo o território nacional, nós só exportamos hoje US$ 100 milhões e, desse total, parte é proveniente dos vizinhos sul-americanos. Mas se analisadas algumas iniciativas sérias como Projeto Brains, Brasscom e outras espalhadas pelo território nacional e pólos tecnológicos como São Carlos, São José dos Campos, Campina Grande e Recife é possível enxergar uma luz no fim do túnel.
A meta do governo é audaciosa, mas não totalmente inviável. Isto desde que se sonhe alto e se viabilize recursos políticos, econômicos e financeiros, via incentivo à indústria de software nacional e investimentos na formação de profissionais cada vez mais qualificados. Além é claro de investimentos consistentes e planejados da iniciativa privada em pesquisa e desenvolvimento dentro de suas casas ou em parceria com universidades. Ou seja, é preciso ter tecnologia de ponta aplicada às necessidades e expectativas do mercado global.
Boas oportunidades estão em soluções baseadas no software livre, mas isso leva tempo. Buscar alternativas, opções a monopólios, é tendência mundial, mas o importante é evitar precipitações e radicalismo ideológico. Nosso país é uma grande empresa que requer planejamento estratégico, análise qualitativa do mercado, identificação de oportunidades e, como não poderia deixar de ser, foco nos objetivos, criatividade, muita dedicação e mãos à obra.
Carlos Eduardo Kühl Nogueira é diretor-geral da InterSystems no Brasil.
Publicado no Jornal Valor Economico
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