Data: 16/08/2003 18:58:13
De: LucaS CarrascO
IP: 200.226.159.157
Assunto: O Haroldo de Campos morreu!
De: LucaS CarrascO
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Assunto: O Haroldo de Campos morreu!
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O Haroldo de Campos morreu nesta madrugada. SONETO REPENSADO [239] haroldo olhou pro céu e viu a máquina do mundo abrir-se sobre a via estreita do vasto campo pronto pra colheita e então - "vou?" - repensou, cheio de endrômina: "eu vou entrar". entrou, levando a nômina - sacola de relíquias - co'a receita abstrata de uma vida inteira feita de transcriar palavras. a alma andrógina que conduzia a máquina sorriu, pedindo a senha: "esta é sua vez?". "sim, pois olhei pra cima e isto se abriu, há senha?". e ao se esfingir: "setenta e três!". a máquina dispôs-se acima a mil galáxias de distância e o fim se fêz. /// LucaS CarrascO bLoG: http://www.casuloinverso.blogger.com.br A MÁQUINA DO MUNDO REPENSADA haroldo de campos [vire-se e decifre as esfíngicas rimas] parte I quisera como dante em via estreita extraviar-me no meio da floresta entre a gaia pantera e a loba à espreita (antes onça pintada aquela e esta de lupinas pupilas amarelas) neste sertão - mais árduo que floresta ao trato - de veredas como se elas se entreverando em nós de labirinto desatinassem - feras sentinelas barrando-me: hýbris-leoa e o variopinto animal de gaiato pêlo e a escura loba - um era lascívia e a outra (tinto de sangue o olho) cupidez impura: dante com trinta e cinco eu com setenta - o sacro magno poeta de paúra transido e eu nesse quase - (que a tormenta da dúvida angustia) - terço acidioso milênio a me esfingir: que me alimenta a mesma - de saturno o acrimonioso descendendo - estrela ázimo-esverdeada a acídia: lume baço em céu nuvioso - mas quisera também como o de ousada fronte vasco arrostando - heróis lusíada - a adamastor: gigantânea alevantada pavorosa figura - e não descria da sua força o nauta diante do titã mas com ele entestava qual na ilíada héctor ao colossal ájax no afã de subjugá-lo em lide desigual (e o mar açoita a nave-capitã) - quisera como o nauta fiel ao real mandato no medonho oceano a rota franqueando qual no breu brilha um fanal - quisera tal ao gama no ar a ignota (camões o narra) máquina do mundo se abrira (e a mim quem dera!) por remota mão comandada - um dom saído do fundo e alto saber que ao seres todos rege: a esfera a rodar no éter do ultramundo claro-amostrando os orbes e o que excede na fábrica e no engenho a humana mente (a cena se passando numa sede) sidérea de esmeraldas e irrompente chuveiro de rubis que a poderosa mão divina ao redor - sumo-sapiente - fizera constelar: e qual a rosa toda se abre ao rocio que a toca e qual desfolhada alcachofra antes zelosa o entrefólio desnuda tal-e-qual ao bravo gama a máquina se oferta do mundo - e expõe-se ao olho de um mortal ao capitâneo arrojo em prêmio aberta - drummond também no clausurar do dia por estrada de minas uma certa vez a vagar a vira que se abria circunspecta e sublime a convidá-lo no âmago a contemplasse (e se morria a tarde e se fechava no intervalo): maravilha de pérola azulada e madreperla e nácar - de coral o seu núcleo - primo anel - álef do nada e de tudo razão (que à teodicéia e à glosa escapa e à não-razão é dada) mas se o gama a esquadrinha e nela (a déia tétis o guiando) a vista logo inflama de espanto e fundo abisma e afina a idéia com aquilo que vê em cosmorama: o empíreo esplendoroso e os sucessivos céus nele orbitando à alta luz que os flama e o móbile primeiro donde ativos fazem-se o sol e os corpos sub-pendentes do cristalino céu noveno - os vivos estelantes luzeiros resplendentes em áureo cinturão de esmalte vário encadeando os sinais sempremoventes do zodíaco (límpido bestiário que a grupos constelantes dará nome: grande ursa cinosura o lampadário de carvões do feio drago - de renome tendo ainda um gineceu: cassiopéia - a ela mãe de andrômeda - a morte não consome que a turba das nereidas (por vence-la a bela) quis punir... - à convidante máquina atento ao nauta coube vê-la por dentro acumulada num instante e exultou: em geográfica cinese iam-se as partes do mundo em desfilante rodízio ao olho expondo-lhe a geodese patente e já mapeada: desde beno- motapa à trapobana e à catequese por tomé em narsinga e ao do sereno santo miraculoso atroz martírio e à glória que do céu ganhou em pleno - pois à máquina de astros que a seu giro orbes sobre-regula o marinheiro- -almirante rendeu-se qual se um tiro de mágico pelouro por inteiro o pasmasse: já o poeta drummond duro escolado na pedra do mineiro caminho seco sob o céu escuro de chumbo - cético entre lobo e cão - a ver por dentro o enigma do futuro incurioso furtou-se e o canto-chão do seu trem-do-viver foi ruminando pela estrada de minhas sóbrio chão - e todos: camões dante e palmilhando seu pedroso caminho o itabirano viram no ROSTO o nosso se estampando minto: menos drummond que ao desengano de repintar a neutra face agora com crenças dessepultas do imo arcano desapeteceu: ciente estando embora que dante no regiro do íris no íris viu - alcançando o topo e soada a hora - na suprema figura subsumir-se a sua (e no estupor se translumina) - e que camões um rosto a repetir-se o mesmo em toda parte viu (consigna) - drummond minas pesando não cedeu e o ciclo ptolomático assim termina... /// |



