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"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." (Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo")
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Mensagem

A hora do diabo

De Zorba em 14/01/2003 23:16:01 a partir de 200.226.226.239
Cara Patricia Marques Pereira
Faco lembrar que a bela garota nao est[a no seio aconchegante dos seus colegas de colegio, estás num forum de discussao do Nosso grande Poeta Fernando Pessoa. Aqui nao necessitaras escrever tao belo como ele, mas deves atrever-se a ensaiar um dialogo maior do que as parcas palavras usadas nos seus encontros cotidianos da garotada iberbe. Explique-se, mostre-se, digas que és, que eu mostrar-me-ei. Ninquem é obrigado a adivinhar o que é A HORA DO DIABO.
É feio voce chegar, em qualquer qu seja, e já ir pedindo: Eu quero, Urgente; Urgentissimo; Eu gostaria... Apresente-se, apresente sua necessidade, sua duvida, crie uma sinergia, troque impressoes, leie o texto e returne ao forum sua compribuicao valiosa, nao saia na roda sem dizer pelo menos obrigado... e piriri e pororo.
Zorba
Zorba
18/7/98
As revelações do
inesgotável
baú pessoano
Do espólio do poeta português, não cessam
de sair inéditos à altura de seu criador
Por João Alves das Neves

Arquivo/AE
O poeta Fernando Pessoa, o "cicerone de Lisboa", caminha pelas ruas da capital portuguesa

O espólio literário do autor de Mensagem e criador dos heterônimos, adquirido pela Biblioteca Nacional de Lisboa, reúne mais de 27 mil documentos, muitos deles ainda inéditos, conforme têm revelado os "pessoanos" do Instituto de Estudos do Modernismo e outros especialistas: são poemas, ensaios, artigos, cartas, projetos literários ou culturais e até políticos, além de fragmentos e mesmo rabiscos sobre mil e um temas, por vezes devidamente catalogados ou apenas identificados pelo meticuloso e, ao mesmo tempo, caudaloso escritor que foi Fernando Pessoa.
Tudo isso cuidadosamente arrumado numa arca tão grande e tão funda que guardou a vastíssima obra que numa primeira fase se desdobrou em 12 volumes de poesia e outros tantos de prosa, na edição portuguesa da África (de Lisboa). É que, a par destes volumes em série, muitos outros foram publicados, conforme o ritmo dos transcritos pelos investigadores, com relevo para a equipe do Instituto dos Estudos do Modernismo, dirigido por Teresa Rita Lopes, e por outros, entre os quais Teresa Sobral Cunha, Pedro Teixeira da Mota (em relação aos textos ocultistas), ao lado de mais alguns e do grupo oficial das edições críticas, cujas conclusões nem sempre têm sido aceitas pacificamente, fato que restringe, obviamente, a receptividade que tais edições mereceriam. Também é verdade que a publicação desses volumes críticos tem sido contestada por aqueles que, em Portugal, no Brasil e em outros países, julgam a obra pessoana sob o prisma meramente literário, nem sempre coincidente com a avaliação acadêmica.
Entretanto, os mistérios do inesgotável baú vão sendo revelados e um dos mais significativos livros é Notas para a Recordação de meu Mestre Caeiro, assinadas por Álvaro de Campos, com textos fixados, organizados e apresentados por Teresa Rita Lopes, que junto aos já conhecidos e a vários outros que foram exumados do espólio reúnem as "ficções", com exclusão de certos rascunhos e da "Discussão em Família", já conhecidos do volume II de Pessoa por Conhecer, da mesma pesquisadora e ensaísta. Mas, para se ter uma idéia deste novo livro, bastará dizer que as "ficções" somam perto de cem páginas, subscritas não somente pelo autor ortônimo, mas também pelos escritores heterônimos. Segundo Álvaro de Campos, "Reis, Mora e eu, que somos profundamente embora diversamente poetas, interpretaremos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se t em sentimento, ou temperamento, anda disfarçado." E acrescenta Campos que "a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é filosofia de Ricardo Reis endurecida, falsificada pela estilização".
Observações que nos ajudam a devassar melhor o mundo heteronômico: o futurista Campos dividiu a obra de Caeiro - há "o guardador de rebanos", "o pastor amoroso" e o dos "poemas inconjuntos": no primeiro, a vida mental de Caeiro, mostrando na 2ª parte "um interlúdio inútil" e os poemas da 3ª cota "são já a descida". Ficções? Fernando Pessoa afirmaria que se trata de "um drama em gente", tanto mais que cada heterônimo "é um drama", como se fosse um enredo, todos constituindo "um drama", salientando Teresa Rita que "Pessoa foi, confessadamente, um espírito religioso mas avesso a toda e qualquer ortodoxia". Referências singulares, em primeiro lugar porque a ensaísta separa as figuras heterônimas de Fernando Pessoa, o criador que não é igual a Caeiro, Campos, Reis ou a qualquer outro. O heterônimo é tão autônomo quanto o "inventor", todos são independentes uns dos outros. E a nota acerca do espírito religioso confirma o que Fernando Pessoa revelou em vários textos (nomeadamente quando admite o seu interesse pelo ocultismo): nunca foi agnóstico, mas, sempre, gnóstico, confusão que só pode ser feita por quem lê o poeta por simples modismo, desconhecendo a sua multiplicidade. Daí a urgência de atender ao sentido das notas do futurista Álvaro de Campos a propósito do lírico Alberto Caeiro.
Para Álvaro de Campos, Fernando Pessoa já tinha feito "aqueles poemas (...) complicadíssimos", porquanto, ao escrever uma quadra, "emprega esforços de organização industrial para ver como há (de) dispor por meio dela os 17 raciocínios que ela é levada a conter; que, quando sente qualquer coisa, se põe logo a cortá-la com uma tesoura de cinco críticas, a embrulhar-se em por que é que o segundo verso contém um adjetivo díspar e em ver como é ainda que não sendo 'mas' bom português naquela altura, vai conseguir que 'senão' tenha uma sílaba só!" Vislumbra-se até onde o futurista quer chegar, mas a leitura de Quadras e Outros Cantares, volume coordenado por Teresa Sobral Cunha, alarga o quadro já divulgado de Quadras ao Gosto Popular. Algo mais que já sabíamos, apesar de a organizadora repetir os textos anteriormente arrumados por Jacinto do Prado Coelho e Georg R. Lind, nas Obras Completas da lisbonense Ática. Surgem mais uma centena de quadras inéditas, enriquecendo as novas trovas, a par de versos de outros volumes, alguns dos quais não são, rigorosa e didaticamente, "quadras".
A coordenadora coligiu tudo o que designou por "quadras simples, cantigas soltas ou cantares", desde 1908 até 1931, assim como "poemas em quadras, ou narrativas em verso, ou canções", sublinhando tratar-se do "encontro do poeta com a forma tradicional portuguesa". O que é discutível: o poema "Autopsicografia", que tem servido para interpretações várias (por vezes, absurdas), poderá ser incluído nas quadras "simples" ou numa "forma tradicional portuguesa"?
Os textos de Quadras e Outros Cantares são apresentados por ordem cronológica e vão além de simples curiosidade (malgrado certas repetições que pouco ou nada adiantam). E há quadras incompletas ou sem maior importância literária (nem tudo o que escrevem os poetas de gênio é genial), embora a revelação de mais inéditos venha enriquecer o acerto pessoano.
Inéditos em português são também os 300 Provérbios, recolhidos e traduzidos por Fernando Pessoa para um editor inglês. As notas e o estabelecimento do texto são de Orlando da Silva (a quem já devíamos uma excelente fotobiografia de Manuel Laranjeira - o escritor "maldito" que os portugueses pouco leram e os brasileiros desconhecem). Anote-se que determinados provérbios escolhidos tinham sido publicados no Livro da Sabedoria Portuguesa, pequena agenda organizada em 1989 por Pedro Teixeira da Mota. Ficaram agora completos.
Em nota prévia, informa Orlando da Silva que Fernando Pessoa atravessava mais uma crise financeira quando aceitou o convite para traduzir os 300 Provérbios, fato documentado por uma carta de 19 de novembro de 1914 ao seu amigo e poeta (de Orpheu) Armando Cortes Rodrigues: "Para acabar a minha desolação material e exterior, imagine você que a única coisa com que neste momento podia (parecia-me que podia contar) - as cinco libras de tradução dos provérbios (parece-me que você viu-me aqui a trabalhar nisso) - faltou-me. Os homens só me mandam aquilo quando publicarem o livro 'depois da guerra'! Uma catástrofe, meu caro."
Esperaria até ao dia do São Nunca... A versão pessoana dos Provérbios jamais foi publicada e, por conseguinte, o tradutor não recebeu sequer um pence pelo seu trabalho! Entretanto, a situação financeira do poeta era tão difícil que na carta a Côrtes-Rodrigues pedia socorro: "Olhe lá, a este propósito e se o pedido o incomodar tenha-o como não feito, v. podia emprestar-me vinte mil réis? Eu não sei quando lhos poderei devolver, e de mais a mais, já lhe devo aqueles cinco que v. uma vez me emprestou..."
Orlando da Silva transcreve integralmente a citada carta e outras três, dirigidas pelo editor inglês Frank Palmer ao tradutor (em 2-11-1913, 30-4-1914 e 29-10-1914). A notícia da tradução dos 300 Provérbios foi dada em primeira mão pelo biógrafo e ensaísta João Gaspar Simões. Anos difíceis: Fernando Antonio Nogueira Pessoa perdera na compra de uma tipografia e no projeto de uma editora a pequena herança que recebera pela morte de sua avó Dionísia: "Por esta ocasião vivia o poeta dos magros proventos que lhe davam as traduções e a escrita de correspondência comercial que ia regularmente efetuando por alguns escritórios e casas comerciais da baixa (centro) lisboeta" - esclarece o coordenador dos 300 Provérbios. Aliás, o maior poeta português do século 20 nunca viveu senão de "bicos"...
Três edições pessoanas foram recentemente lançadas pela editora Assírio & Alvim: Mensagem, A Língua Portuguesa (ensaio) e A Hora do Diabo, todos enriquecidos com oportunos estudos. Cabe lembrar que, com a adesão de Portugal às regras do Mercado Comum Europeu, a obra pessoana deixou ser de domínio público, passando às mãos da editora, que reestabelecerá em suas reedições os textos tal como foram concebidos pelo escritor. No Brasil, o direito de publicação dos cinco primeiros volumes é da Companhia das Letras.
O volume Mensagem vem com a ortografia atualizada - o que já acontecera com a 7ª edição da Ática (de Lisboa), decisão discutível. O ensaísta Gilberto de Melo Kujawsky foi um dos discordantes, nessa altura, considerando a advertência pessoana: "O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para eles mortos, e ele um morto para eles." A 1ª é a simpatia; a 2ª a intuição; a 3ª é a inteligência; a 4ª é a compreensão; e a 5ª "é menos definível. Direi talvez, falando a um que é a graça, falando a outros que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo".
Tais considerações justificavam a ortografia do autor, por ter sido a usada pelo poeta e pelo caráter simbólico da Mensagem. Não foi assim que o entendeu Fernando Cabral Martins, que preferiu a ortografia "moderna" (e qual será a "moderna" nos próximos 50 anos?). E acresce que as transcrições dos pesquisadores e ensaístas do Instituto de Estudos do Modernismo têm seguido a ortografia pessoana, que se compreende tão bem - ou talvez melhor - que a modernosa de hoje...
Vêm a seguir explicações sobre a gênese do único livro que Pessoa publicou em vida e outras notas, algumas das quais transcritas de inéditos do espólio literário. Quanto às contradições suscitadas pela simples leitura da Mensagem, resume Cabral Martins que o livro dá "um novo sentido" ao patriotismo de vários modernistas, na década de 30: "É uma unificação com Portugal, com a alma da raça, com a nação portuguesa, que existe sob um brasão familiar, tem uma genealogia e respira o ar dos mitos. Mas tudo se passa num universo criado por um livro, é só uma variante da experiência levada a cabo por Pessoa com a multiplicação dos outros heterônimos."
Por sua vez, o volume A Língua Portuguesa (nº 2 da coleção Assírio & Alvim) foi coordenado por Luísa Medeiros (da Universidade Nova de Lisboa), tendo sido dividido em duas partes - "O problema ortográfico" (62 páginas manuscritas) e "Defesa e ilustração da Língua Portuguesa", com cerca de 100 páginas, incluindo diversos textos redigidos inicialmente em inglês. Do total, 15 deles já tinham sido revelados em Pessoa Inédito (org. de Teresa Rita Lopes).
A importância atribuída pelo escritor ao idioma materno está mais do que definida na frase já popular: "Minha Pátria é a Língua Portuguesa", mas o novo livro vem confirmar que Fernando Pessoa seguia atentamente a evolução lingüística, nomeadamente o projeto e a discussão da Reforma Ortográfica de 1911, enquanto refletia sobre outros aspectos: "A palavra falada é um fenômeno natural; a palavra escrita é um fenômeno cultural." E se o homem pode viver sem ler nem escrever, não o fará civilizadamente. Daí que a palavra escrita fixe a ortografia, ao passo que esta é determinada pela literatura e pela cultura gramatical "filológica". E prossegue por longas páginas a reflexão até concluir que as mudanças de 1911 não eram necessárias porque o sistema ortográfico seria "o mais perfeito que se conhece". Por isso, a reforma foi "imoral", além de "impatriótica": "Foi imoral porque se dispôs de uma coisa de que não éramos os únicos donos. A língua, e portanto, a ortografia portuguesa é profundamente conjunta de Portugal e do Brasil. Se, como era nossa obrigação, o houvéssemos consultado, haveríamos, pelo menos, limitado na reforma. O Brasil, apegado como era e é à ortografia antiga, ter-nos-ia desaconselhado dela. E, fazendo-a, fomos impolíticos. Praticamos um ato que, à parte ser desnecessário, ou, pelo menos, não urgente, foi abrir uma cisão cultural entre nós e o Brasil, e, por esse motivo e por outros, prejudicou, naquele país, os interesses de autores e editores portugueses."
Ao defender e ilustrar a Língua Pátria, distinguiu que a linguagem falada é popular e aristocrática a linguagem escrita, referindo seguidamente a propriedade da linguagem, feita "para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela". Oferece depois as suas notas para um critério ortográfico, acentuando que o Brasil não aceitou a reforma: "Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna." E menciona a necessidade de uma língua in-nacional, porém não aceita o artificialismo e admite o inglês como língua cultural e natural. Classifica os idiomas imperiais: "O português, que tem no Padre Antônio Vieira o maior representante cultural da Língua Portuguesa", passou a ser "a mais rica e mais complexa das línguas românicas, uma das cinco línguas imperiais, é falado, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto, o francês, é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano - isto é, não é uma língua isolada é a língua falada num grande país crescente - o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação)".
Fernando Pessoa propunha a fundação de um grêmio da cultura dos povos de idioma português, cujos pontos desenvolveria em outros trabalhos e sublinhava: "Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, não são nações diferentes, contêm num sistema uma direção imperial comum, a que é mister que obedeçam." E ponderava que a missão de ambas as nações tinha origens comuns: "a) como memória e tradição, a fundação da civilização universal moderna pelo Infante D. Henrique; b) como propósito e utopia, a criação, pelos Sebastianistas, da idéia de um Império Português, e signado como o Quinto Império, e formado em bases diversas das de todos os Impérios passados; c) como tarefa de ação, concentração em uma unidade espiritual, a criar progressivamente, da tradição em que assenta a razão histórica do Quinto Império, e da esperança em que reside a razão religiosa dele."
Prosseguindo, entendia Fernando Pessoa que acima desse Império, "subordinado ao espírito definido pela Língua Portuguesa, não há fórmula política nem idéia religiosa". Finalmente, para se fixarem os meios materiais do Império, havia que se estabelecer a linguagem, "e, antes de mais nada, a ortografia etimológica, excluindo as extravagâncias simplificadoras criadas pela influência da política estrangeira". Em resumo, num plano a tudo e a todos superior, o espírito da Mensagem era, mais do que a expansão de um povo, a razão de ser de todos os povos que se irmanavam não só pela fala mas também pela alma.
O terceiro volume da nova coleção, A Hora do Diabo, é um conto ou novela de 30 páginas em que Satanás aparece sem disfarce e conversa longamente com uma senhora que está esperando um filho. Dialogam enquanto o Diabo conta a sua própria história de vencido por Deus: "A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas" - confessa "o porco", que se declara poeta e sonhador: "(...) Corrompo porque faço imaginar. Mas Deus é pior - admite o satânico - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético (...)"
Pinçadas aqui e além. Certas frases do conto já haviam sido antecipadas pelo autor, quase biograficamente: "Nunca teve infância, nem adolescência, nem portanto idade viril a que chegasse. Sou negativo absoluto, a encarnação do nada. (...) O que poderia ter sido, o que deveria ter havido, o que o Leito ou a Sorte não deram - atirei-os às mancheias para a alma do homem e ela perturbou-me de sentir a vida viva do que não existe." E mais adiante: "Sou a Estrela Brilhante da manhã. E há tanto tempo o que sou! Outro me veio substituir (...)." E confessa: "Sou por mister, Mestre da Magia, não sei contudo o que ela é." Outra passagem, nesta história cujo sentido é tipicamente pessoano: "Sou naturalmente poeta, porque sou a verdade falando por engano, e toda a minha vida, afinal, é um sistema especial de moral velado em alegoria e ilustrado por símbolos."
Considerando-se "o mestre lunar de todos os sonhos, o músico solene de todos os silêncios", este Diabo fantástico insinua, de fato, algumas facetas do mais oculto Pessoa: "Dou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Fiquei fora da Criação", o das memórias de coisas que não se cumpriram: "A verdade, porém, é que não existo - nem eu nem outra coisa qualquer." A história deste Diabo é incompleta, ao que diz Teresa Rita Lopes, que interpreta o coto, que principiou por ser um poema ("Santan's Soliloquay", de David Merrich, personalidade literária inglesa próxima das filosofia orientais).
Com o título As Lisboas de Pessoa, foi apresentada há meses, primeiro em Barcelona e depois na capital portuguesa, uma das mais curiosas e amplas exposições sobre o criador dos heterônimos, projeto e direção de Juan Insúa. Com a disposição gráfica da Fotobiografia de Maria José de Lancastre, As Lisboas de Pessoa teve outro alvo, enriquecendo bastante a documentação pessoana, que - como os textos do seu enorme espólio literário - está longe de ser inteiramente conhecida, pois a cada passo aparecem novos testemunhos, fotográficos ou não, que vêm aumentar o acervo pessoa. "Cicerone de Lisboa" o apelidou Teresa Rita e com toda a razão, porque paralelamente à cidade em que nasceu, viveu e morreu - apesar de a ter constantemente "revisitado" -, a investigadora e ensaísta ficou também ligada à edição do guia Lisboa, o que o turista deve ser, ainda que este destaque seja apenas mais um do poeta com a sua cidade.
Recentemente, foram publicados outros livros que merecem referência - e um deles, Fernando Pessoa e as Revoluções Nacionais Européias, dá a oportunidade a Raul Morodo, professor da Universidade de Salamanca, de uma abordagem em três áreas convergentes: "Contexto e percursores da 'revolução nacional' ", "O pensamento político de Fernando Pessoa" e "As formalizações políticas do nacionalismo radical".
Antes de concluir, haverá que enumerar O Pensamento Maçônico de Fernando Pessoa, subscrito por Jorge de Matos. As interpretações são habilíssimas, mas, por mais que sejam conhecidas as posições tomadas pelo poeta a favor da Maçonaria, nomeadamente por meio daquele artigo em que o escritor protestou contra a extinção da Maçonaria (no Diário de Lisboa, de 4-2-1935), as induções sobre o seu pensamento maçônico não podem ser tomadas ao pé da l etra. As insinuações demonstram atitudes próximas, mas esta correlação do poeta com outros "pensamentos" é também evidente, desde o espiritismo, à teosofia, passando pelo rosacrucionismo e, sobretudo, pela astrologia.
Os livros "Mensagem" (R$ 28,58), "A Língua Portuguesa" (R$ 35,72), "A Hora do Diabo" (28,58) - editados pela Assírio & Alvim - e "Notas para a Recordação de Meu Mestre Caeiro" (Estampa, R$ 24,00), "Quadras e Outros Cantares" (Relógio D'água, R$ 41,43) , "As Lisboas de Pessoa" (Ibis, R$ 39,00), "Fernando Pessoa e as Revoluções Nacionais Européias" (Caminho, R$ 30,00) e "O Pensamento Maçônico de Fernando Pessoa" (Hugin, R$ 42,72) podem ser encomendados pela Livraria Portugal (tels. 011. 606-0877 e 604-1748).
João Alves das Neves é escritor e professor, autor de Poesias Ocultistas de Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira, Profeta do Novo Mundo


Em resposta a:

A hora do diabo (Patrícia Cruz Marques Pereira paticmarques@terra.com.br - 14/01/2003 16:29:47)
Gostaria de receber um resumo sobre esta obra. Obrigada Patrícia...(ver)

Respostas:

Não lhe parece que será melhor ler A Hora do Diabo do que pedir que leiam e resumam por si?...(ver)

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