
ELIS - A
EQUILIBRISTA
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Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 3 de junho de
1979 |
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Foram quatro
horas de conversa aqui na redação do Folhetim. E, quando acabou,
Elis Regina não revelava o menor sinal de cansaço, resistindo
bravamente à avalanche de perguntas formuladas por Helô Machado,
Luis Fernando Rodrigues e Osvaldo Mendes. Difícil foi reduzir a
entrevista a estas três páginas. Daria um livro. O que ficou ao
final da conversa foi uma certeza: Elis é uma cantora em plena
maturidade. E um ser humano daqueles que fazem um bem danado se ter
como amigo.
FOLHETIM - Durante muito tempo você se recusou
a fazer o "Fantástico", a fazer apresentações em televisão no
esquema da Globo. O que é que aconteceu agora? Mudou a Elis, mudou o
"Fantástico", mudou a Globo, o que é que mudou? ELIS
REGINA - Bom, mudou uma porção de coisas, principalmente a Elis
mudou de gravadora. Quando eles me propuseram fazer uma série de
coisas em televisão, eles perceberam que eu fiquei meio arredia. Não
estava muito a fim de transar, não fiquei apaixonada pela idéia. Aí,
eles me perguntaram por que e eu falei que tinha sido uma certa
atitude adotada, por nós todos, fazer o possível e o impossível pra
não fortalecer essa condição da Globo, de ser a única em que todo
mundo vai. Era prá gente procurar fazer outro tipo de televisão,
outros canais de televisão, como uma alternativa. Porque a figura da
Globo é uma figura muito forte, onipresente, onipotente. Aí pintou a
pergunta assim: mas quem são os que não estão fazendo? E foi
exatamente nessa hora que eu me dei conta de que estava todo mundo
fazendo, só a Elis que não fazia. Quer dizer, até um determinado
momento, seguia-se um certo tipo de linha e de repente esse negócio
foi sendo rompido. E está todo mundo realmente fazendo a Globo e,
quem não está ao vivo, está através de suas músicas, inseridas nas
novelas da Globo, entendeu? E eu acho que a melhor maneira de a
gente brigar contra uma série de coisas é ficando próximo do
acontecimento, das coisas. Quer dizer, quanto mais gente, com a
consciência até dessa onipotência ou dessa prepotência da TV-Globo,
estiver lá dentro, mais fácil será - quer dizer, não a curto nem a
médio prazos, mas a longo prazo - eles voltarem a conversar com os
artistas e darem a eles o peso e a medida que, na realidade, eles
têm. Porque, de uma época em diante, a única coisa importante que
havia era a TV-Globo. A TV-Globo era a grande artista da TV-Globo.
Eles fizeram questão de acabar com a valorização da mão-de-obra - um
negócio muito cômodo pra eles -, ficando todo mundo num nível só.
Eles mantêm uma série de grandes estrelas contratadas, ainda que não
estejam se apresentando em televisão, simplesmente para não irem
embora. E fica assim, como está. Eu acho que é assim que a gente vai
poder, inclusive, acabar com um certo bloqueio que existe contra a
música brasileira. E ainda que, neste exato momento, a TV-Globo
esteja fazendo uma série de programas a respeito de música
brasileira, pra mim parece ser só decorrência da personagem Ana
Preta, do "Pai Herói", como a discoteca é decorrência da personagem
Júlia, do "Dancing Days", entendeu? Quer dizer, é sempre uma questão
de modismo. E se a gente ficar muito cheio de escrúpulos, muito
cheio de "nheconheco", numa postura de "não me misturo", vai a cada
dia que passa ficando pior. Porque, objetivamente, qual é o mercado
de trabalho que nós temos? FOLHETIM - Fora o
disco... ELIS REGINA - Fora o disco, que é o que toca
na rádio e que não nos rende nada ou rende uma coisa ridícula como,
assim, quinze mil cruzeiros por mês, depois de quinze anos de
profissão, tocando em todo território nacional. FOLHETIM -
Quanto você recebe por mês de... ELIS REGINA - Eu
recebia, até o ano passado, um milhão e meio. FOLHETIM - Um
milhão e meio? ELIS REGINA - Por vinte discos. A cada
dois meses eu recebia pela execução dos meus discos, em todo
território nacional, nas mil e uma possibilidades de execução, mil e
quinhentos cruzeiros. A Clara Nunes recebia mil. FOLHETIM -
Você disse mil e quinhentos cruzeiros. ELIS REGINA -
Mil e quinhentos, menos que um salário mínimo. FOLHETIM - Por
mês? ELIS REGINA - Não, por mês não. Por trimestre
(risos). É, por trimestre. Quer dizer, agora, depois do surgimento
do Ecade, depois de uma série de gritarias, uma série de confusões
que a Sombrás e a gente foi arrumando, a partir dessa chiação toda,
comecei a receber dezoito mil cruzeiros por vinte
discos. FOLHETIM - Dezoito mil por trimestre? ELIS
REGINA - Por trimestre, quer dizer, seis mil cruzeiros por mês.
Dá pra viver um vidão, né coração... FOLHETIM - Bom, mas já é
maravilha diante do... ELIS REGINA - Diante do quadro
anterior, que era quinhentos mangos. Aí, tirando esse negócio de
tocar discos, a gente tem teatro pra fazer, que você sabe muito bem
que está uma barra. FOLHETIM - Acaba caindo na televisão
Globo. ELIS REGINA - Acaba. Nesse ano, está tudo em
pique de loucura: preço de passagem de avião, preço de hospedagem e,
quando você viaja, a passagem, a hospedagem, verba de alimentação,
salário, transporte de equipamento, percentual de teatro, percentual
de Ecade, percentual de Sbat, aí começam os percentuais todos. Eu
acho que, neste ano, inclusive, vai ser muito difícil transar, se
não tiver patrocínio segurando a barra. Ano passado já deu pra
empatar. FOLHETIM - Este ano como é que estão as
coisas? ELIS REGINA - Bom, está assim: eu fiz um
disco, estou fazendo o lançamento de um compacto que foi tirado
desse disco, com o "O Bêbado e o Equilibrista", vulgo Hino da
Anistia, e, do outro lado, "As Aparências Enganam". O disco deve
sair entre 25 de junho e 1° de julho. Eu, nessa época, já vou estar
ensaiando um repertório novo, prá apresentação no Festival de
Montreaux, na "Noite Brasileira", com Hermeto Pascoal e Egberto
Gismotonti. Essa apresentação vai ser feita no dia 19 de julho -
daí, sai um novo disco. No dia 25 de julho, eu faço a "Noite
Brasileira" do Festival Internacional de Tóquio. Da Suíça, passamos
por Moscou - quer dizer, escalamos, porque eu não vou nem sair do
avião, todo mundo pode ficar relex, não salto, vejo a pista e se ela
é igual às demais - e aí a gente vai pro Japão. Depois do Japão, eu
volto pra cá, devo fazer mais alguma coisa de televisão e vou fazer
um giro pela Argentina que tem não só, pra mim, a finalidade de ir
até a Argentina pra fazer um negócio que estão me pedindo já há
algum tempo, mas, principalmente, ver se eu agito o lance do Tenório
Júnior com o pessoal de lá que sabe onde ele está. FOLHETIM -
Tem novidades do Tenório? ELIS REGINA - O Tenório, até
dois anos atrás, estava vivo numa prisão em La Plata. FOLHETIM
- Essa é a informação mais recente que você tem? ELIS
REGINA - É a informação mais recente que eu tenho, que eu passei
pro pessoal, porque quem me deu essa informação foi um compositor de
lá, que foi visitar alguém detido por algum motivo, em La Plata, e
viu o Tenório. FOLHETIM - Mas as notícias da OAB, do
Itamaraty... ELIS REGINA - Não, não se pode fazer nada
por um simples motivo: o Idibal Piveta precisa de uma procuração da
família do Tenório, ou da mulher ou dos pais, e a gente não consegue
arranjar. A mulher prometeu mandar, não mandou. Eu estive com o pai
dele, três semanas atrás, numa conversa longuíssima, mas ele insiste
que a procuração deve ser dada pela mulher. Agora, eu acho que não
dá pra esperar muito mais. FOLHETIM - Você não acha que se fez
muito silêncio na história do Tenório? ELIS REGINA -
É, pintou aquela especulação normal. Até o dia que esse menino foi
prá minha casa e falou: "eu vi o Tenório". Aí eu comecei a detonar
tudo, né? Inclusive, com a ajuda de Roberto Menescal, peguei o
telefone da mulher dele, Ronaldo Bastos, mais uma pá de gente metida
e até agora não se conseguiu nada, a não ser dedicar espetáculo à
presença de algum amigo e ausência do Tenório Júnior. FOLHETIM
- O que é muito pouco. ELIS REGINA - Na realidade, é.
Mas há uma esperança ainda. De repente, vai alguém lá, leva um papo
com os caras, consegue chegar até perto, fala: "olha, o lance é
outro, nenhuma periculosidade, é um músico, sumiu". Parece que ele
saiu pra passear em Buenos Aires na semana do famoso pente fino,
antes da queda da Isabellita em 1975, esqueceu os documentos no
hotel e sambou. Nunca mais ninguém viu. O Vinícius tentou tudo.
Inclusive o rapaz da embaixada era genro do Vinícius. Eles tentaram
tudo o que foi possível. Agora, a gente esbarra no: "mas o que é que
a senhora é dele?" Eu sou amiga. "Ah, não adianta, a família mesmo é
que tem que ajudar." O governo brasileiro também... FOLHETIM -
Como é que foi seu encontro com o Lula? ELIS REGINA -
Bom, ele primeiro falou uns três palavrões daqueles maravilhosos,
que você fica logo super à vontade. Depois, ele ficou brincando de
ver - pegar no braço - e ver se existe mesmo ou é figurinha de
televisão e ficou me sacaneando um bom tempo. Eu fiquei morrendo de
vergonha e conversei muito pouco com ele. Ele estava muito eufórico
com a presença das pessoas lá. Ele estava contente. FOLHETIM -
A imagem que você tinha dele bateu com a realidade? ELIS
REGINA - Eu acho que ficou uma coisa mais forte. Ele é uma
pessoa baixinha, troncudinho, fala olhando dentro do olho, tem uma
cara ótima. Mas aquele cara deve saber tudo. Inclusive, eu perguntei
pra ele: é você, rapaz, que está aprontando tudo isso? Ele falou:
"eu, aprontando? Imagina, sou apenas um trabalhador". Eu falei: tá
legal. Você não tem tamanho pra folgar desse jeito não, hein rapaz?
Você é muito pequinininho. Aí ele ficou brincando um tempão. É que o
clima estava meio de festa mesmo. Deu pra conversar pouco, ele
deixou o telefone prá gente ligar pra ele, que ele gostaria muito de
ir na minha casa, prá gente conversar, saber uns lances da profissão
da gente. Pra ficar melhor informado. FOLHETIM - Mas como é
que fica essa transa do artista com o operário? ELIS
REGINA - "Você acha que tem muita diferença?"
(Risos.) FOLHETIM - Não é um negócio mais de moda, não virou
modismo estar do lado deles? ELIS REGINA - Eu não sei
se é moda. Quando acontecem esses "shows", surgem quatro tipos de
adesão: as pessoas que vão porque acham que é isso mesmo, que têm
mais é que ir. Tem o pessoal que vai com medo de dizer não e ficar
ruço, tipo, assim, arregou; tem nego que vai numa de aparecer,
porque é uma oportunidade boa pra aparecer, e tem o pessoal que
pinta porque é festa. FOLHETIM - Por que você, agora, grava na
WEA.? ELIS REGINA - Sabe, eu acho que esse lance aí é
o seguinte: não tem gravadora brasileira, sabe? Eu preciso vender
meu peixe, eu vivo disso. O dia que tiver uma gravadora brasileira
periga todo mundo ir pra lá, mas ela não pintou
ainda." FOLHETIM - E aquele projeto do Chico, a compra de uma
gravadora? ELIS REGINA - "Bom, o Chico tem o projeto,
mas ele continua na Polygram, né? (Risos.) Quando ele sair, eu até
vou prá gravadora dele. FOLHETIM - Semana retrasada o Tarik de
Souza avisou - pelo Folhetim - sobre um encontro de compositores
independentes, no Paraná, liderados pelo Antonio Adolfo. O pessoal
que está gravando os discos de fundo de quintal. Como é que você vê
esse projeto? ELIS REGINA - Bom, no momento em que
pintou, ninguém acreditava. O Adolfo já está partindo pro terceiro
disco, e faz dois anos que eu não tenho tido chance de conversar com
ele. Então, eu não sei exatamente em que pé estão essas coisas. Eu
sei que o Adolfo fez, que o Danilo Caymmi fez. Me parece que tem
mais uns dois ou três músicos no projeto. Eu acho que isso tudo é
embrião de uma coisa nova. Se tentou fazer esse negócio de esperar
pra ver que bicho que ia dar com a gravadora Mocambo. Agora, onde
estão as pessoas que são os líderes da Mocambo? O Paulinho da Viola
não saiu da Odeon, o Chico não saiu da Polygram, o MPB-4 não saiu da
Polygram; quer dizer, como é que é que você vai endossar um
empreendimento em que os próprios empreendedores não estão colocados
dentro dele. FOLHETIM - No Brasil 79, qual é a do
artista? ELIS REGINA - Olha, Osvaldo, eu estou
querendo pegar o maior número de compositores desconhecidos pra
gravar, pra arejar um pouco. Está ruço. Está todo mundo contando as
mesmas histórias, está um circo de elefantinho, todo mundo gravando
as mesmas músicas ou uma mesma linha de composição, porque é tudo
feito pelo mesmo compositor. Um pouco desse desinteresse de parte do
público talvez seja por causa disso. Quando você pega uma remessa de
discos de fulano, beltrano, sicrano - por exemplo, vamos falar das
mulheres -, pega Simone, Bethânia, Elis e Gal, você sabe que,
basicamente, o repertório é o mesmo. E que são sempre os mesmos seis
caras, compondo há 15 anos. Eu quero furar esse
bloqueio. FOLHETIM - E você acha que tem gente nova e boa por
aí? ELIS REGINA - Tem. Tem alguns que não tiveram
possibilidade de ser ouvidos, ter o trabalho debatido, criticado.
Por quê? Porque não tem o Festival de antigamente, onde a rapaziada
nova pintava com força. Televisão estava aberta, o rádio estava
aberto, o jornal estava debatendo, o nego se sentia impulsionado em
direção a alguma coisa. O Festival sumiu. Aparecer num programa de
televisão? Esquece. Porque o espaço está caro e a gente vai botar
quem está em primeiro lugar na parada, quem está tocando mais no
rádio. Gravar disco? Pô, ao preço que está o vinil? Vamos investir,
mas rapidinho pra voltar. Como em todas as áreas, malandro. Tu acha
que se o Folhetim não tivesse vendendo jornal, tu estava escrevendo
no Folhetim ainda? (Risos.) Sabe? Tu não estava escrevendo. Pra
começar você cria muito caso com censura, muito corte, muita
confusão, fecha o Folhetim, que está dando muita treta. É isso aí,
bicho. Em qualquer área está assim. Me dá o meu. Essa é a filosofia
reinante. Clima de últimos dias de Pompéia. Eu não sei o que está
pra acontecer, porque está todo mundo na caça ao dinheiro, com uma
força que eu fico até com medo. Agora, a moçada que compõe está num
gueto. Quer dizer, não tem acesso à gente. Por quê? Porque, se eu
não estou no Recife, estou em Porto Alegre, estou rodando a minha
bolsa em várias praças, né? Assim também é com os demais. Segundo
grande problema: os compositores, com justa causa, diga-se de
passagem, são todos intérpretes hoje em dia. Não tem espaço pra
intérprete novo. FOLHETIM - Mesmo porque, como compositor,
eles morreriam de fome. ELIS REGINA - Morreriam de
fome. Eu falei: com justa causa. FOLHETIM - É, mas deveria
deixar claro que essa "justa causa" é a fome. ELIS REGINA
- Não recebe direito autoral. Agora mesmo a Sueli Costa está
passando pelo vexame de receber do Ecade Cr$ 1.673,00 de arrecadação
de um ano de execução de músicas dela em todo o território nacional.
Quer dizer, a Sueli Costa vai passar pires na praia pra viver e
sustentar o filho dela? Estou juntando xerocópias de todas as
arrecadações de Transversal do Tempo, que eu fiz com músicas de
Sueli, pra ela poder chegar no Ecade e dizer assim: olha, pelo menos
a Elis Regina e a Simone pagaram. Está aqui a papelada, olha. Aí,
ela vai receber ou não. Quem sabe? FOLHETIM - Elis, quando é
que começou tua abertura maior de visão, de simplesmente cantora a
algo mais que uma simples cantora? ELIS REGINA - Eu
acho que eu pintei no pedaço muito jovem, 19 anos e não sabendo nada
da vida. Vinda de uma camada pobre da população. Quer dizer, o
"alegro desbum" realmente se estabeleceu na minha cabeça a partir do
negócio do "Arrastão". Eu fiquei famosa, saia na rua, todo mundo
parava e pedia autógrafo. Eu entrava na loja, comprava um negócio, o
nego não deixava pagar. Fiquei com crise de supermulher, Mulher
Maravilha, durante algum tempo. Eu rodopiava, falava Shazan e estava
tudo certo. Quer dizer, não precisava nem rodopiar. Eu cantava e o
mundo desabava. FOLHETIM - Rodopiava os braços naquele
tempo. ELIS REGINA - É, rodopiava os braços. Eu não
passei um período grande de ficar tentando. Desnorteou a minha
cabeça, né? Depois, a barra começou a pesar. Você descobre que
existe contrato, que é como um outro qualquer, que tem cláusula que
tem que ser lida, porque, se você não ler, dança. Que o empresário
nunca é um cidadão acima de qualquer suspeita. Esses baratos todos
foram me dando uma visão do lado profissional, que é igual a você,
ao arquiteto, ao médico. A partir daí, eu comecei a encarar esse
negócio de cantar como uma profissão mesmo. FOLHETIM - Você
"explodiu" em 64, com o País mudando de dono. Como é que estava a
tua cabeça em 64, com relação ao que estava fora. Você não percebia
o que acontecia? ELIS REGINA - Percebia, mas eu não
tinha as informações todas. Percebia na hora que um companheiro ia
cantar uma música e aí já não podia mais. Um aviso que eu recebia de
que certas músicas não podiam mais ser cantadas. Mas eu tomei um
susto em 68, quando tudo ainda parecia "coincidência". Acabou o
"Fino da Bossa", e não foi um negócio isolado destruir uma
trincheira de defesa da música brasileira, com expoentes de
linguagem como Edu Lobo, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo. Mas ficou a
Jovem Guarda, Hebe Camargo, sabe? Então, passados os anos, você
começa a ver que tudo tinha uma razão de ser. FOLHETIM - Isso
em 68? ELIS REGINA - É. Aí pinta muita guitarra no
samba, é a chegada da ordem de fora mesmo. Vamos faturar porque isso
é um negócio como outro qualquer. Quer dizer, o romantismo da gente
foi pro brejo. Dane-se que você goste de samba, vai começar a gostar
de samba com guitarra, agora. Começa a massificação. Toca de manhã
no rádio, de tarde, de madrugada. Daqui a pouco está todo mundo
achando ótimo. Esse negócio pegou um monte de caras, nego que foi
embora, nego que resolveu ir estudar fora, aqueles lances todos. Aí
você começa a saber as causas e, como está mais sozinho, tem que
procurar gente de outras áreas pra conversar e já fica sabendo de
outras coisas. O panorama se arma, você saca o lance e não dá mais
pra fugir. Quer dizer, tem gente que consegue fugir e até inventa um
discurso diferente pra desdizer o anterior. Mas, se eu não tinha
muros, minha cabeça foi feita e está aqui. FOLHETIM - Você e o
Jair formaram uma dupla que balançava. Era uma coisa muito boa de se
ouvir. Até hoje, botar aqueles discos e ouvir... O que aconteceu com
o Jair? Você acompanha ainda o trabalho dele, você fala com ele,
vocês... ELIS REGINA - Não, a gente continua se
falando, se cruza. FOLHETIM - Mas e a relação, que parecia tão
ligada num momento importante da história da música da gente e toma
caminhos totalmente diversos, opostos. A Elis hoje é uma coisa, na
cabeça da gente, nos discos que se ouve. Outra coisa é o Jair. Ele é
uma lembrança. Uma agradável lembrança. ELIS REGINA -
Eu acho que ele está começando a se dar conta de uma série de
coisas. O fato de ele ter se tornado um cantor famoso provocou uma
confusão séria na cabeça dele. Porque o Jair era plantador de cana,
sabe? Um cara que não tinha sapato. Foi uma pessoa muito marcada. De
repente, farinha pouca, meu pirão primeiro, e tudo bem, eu até
entendo. Eu não entendo noutro tipo de gente, sabe? Que teve
informação, que conviveu com os lances, que passou por umas tantas
coisas, de repente ficar com esse comportamento
arrivista... FOLHETIM - Talvez a diferença tenha sido que, num
dado momento, você percebeu o que era tudo aquilo e ele não
percebeu. ELIS REGINA - Eu acho até que percebeu,
porque ele tem essa consciência. A gente, quando conversa com ele,
praticamente ouve as mesmas coisas e fala a respeito de tudo. Da
mecânica profissional ele sabe tudo, mas também não briga contra,
pelo medo de voltar pro lance que foi marcante no mau sentido. Bom,
mas eu tive uma notícia ótima nos últimos 15 dias. Ele está muito
ansioso, esteve conversando com um amigo comum, dizendo que queria
me encontrar. Não sei se é pra conversar, se é pra lembrar alguma
coisa, retomar algum negócio. Porque, durante os dois anos do "Fino
da Bossa", eu mais convivi com o Jair do que com a minha família
mesmo. A gente estava despencado em cima de avião pelo Brasil
inteiro. E foi, realmente, um grande amigo. Amizade mesmo assim
daquelas de amarrar bode e ficar de boca no chão chorando. Então, de
repente ele está inseguro, meio desnorteado sobre o que fazer daqui
pra diante, procurando a velha turma pra bater papo, o que eu acho
muito bom. FOLHETIM - Mas não está chegando o momento, você
não está sentindo chegar um momento assim, em que, tanto a meia
verdade quanto a mentira deslavada, elas vão ter que ser colocadas
na mesa? Quer dizer, no nosso setor, já que você está falando
nele? ELIS REGINA - Eu acho. Está na hora. Faz uns 10
anos que eu estou esperando. Prá gente atingir os fins, vai
aproveitando todos os meios, e tem nego que está no meio. Não quero
saber quem é, não vou dar nomes. Agora, existe uma coisa chamada
tempo, que está solta aí. O mundo não pára de rodar. Ele é redondo.
Saí daqui e pra aqui volta, sabe? E vai chegar uma hora que esse
pessoal vai ter que se explicar. Ou, se não quiser se explicar, a
tal da máscara da face vai cair. Porque não é possível que tenha
tanta gente sacando o lance e tenha que engolir em seco, em nome da
não-agressão, do não-patrulhamento. Agora, a cada dia que passa há
menos chance pra você representar. Porque as pessoas aprenderam.
Elas estão sentindo o cheiro de longe da fajutagem. FOLHETIM -
Há muita diferença entre gravar um disco na WEA e na sua antiga
gravadora? ELIS REGINA - Claro. A WEA, por incrível
que pareça, é democrática. É assim: "o que é que você quer fazer?
Como é que você gostaria de fazer? Pelo seguinte: você é o artista e
nós lidamos com artista. Artista de cinema, artista de televisão e
artista de disco. Você faz o que quiser, porque a gente tem um
departamento especializado em divulgar e vender a tua idéia, a gente
está comprando a tua idéia". É bem diferente você ter um
departamento de divulgação e um departamento de vendas a serviço do
departamento artístico. Em outras gravadoras, os departamentos
artístico e de divulgação estão a serviço do departamento de
vendas. FOLHETIM - Só pra constar da entrevista: já foi
resolvido o problema do LP lançado pela Polygram com músicas de
testes das gravações? ELIS REGINA - Olha, eu recebi
dois impulsos. Primeiro, achava que devia firmar jurisprudência a
respeito do assunto. Porque eles estão um pouco equivocados. Eles,
na realidade, são donos de um fonograma, quer dizer, são donos de
uma gravação, mas eles não são donos da minha voz. O disco só pode
sair se, em princípio, eu estiver de acordo com ele. E eu não estou
de acordo, porque aquilo era refugo de gravação. Isso aí, nas mãos
de um juiz sério, competente, dá pra discutir uns dois anos. Afora
isso, eles não têm uma gravação, mas um esboço de gravação. E isso
se prova pelas críticas todas que saíram no Brasil. Todo mundo se
tocou que aquilo era uma voz guia, quer dizer, tem o lado moral
querer formar jurisprudência, pra todo mundo ter como se comportar,
caso ocorra uma desgraça dessas. Agora, tem o outro lado. A pobreza
é tamanha que, de repente, você se misturar nesse lance, também te
diminui. E fica dando divulgação para o que você está a fim que não
seja visto. FOLHETIM - Mas, não se falando mais, você não acha
que eles podem aproveitar e fazer isso com outras pessoas,
também? ELIS REGINA - É que a rapaziada arrepiou lá
dentro. O pessoal da mão-de-obra, como eles chamam, chiou. Pintaram
empurrões, umbigadas, negócio esquisito. Agora, eu aprendi que de
hoje em diante vou gravar tantas músicas e só elas é que vão ser
gravadas. Não tem mais prova de nada. FOLHETIM - Por que é que
você não partiu, em termos de show, para vôos mais arriscados, como
atriz e não só como cantora. ELIS REGINA - Porque já
tem gente fazendo isso. FOLHETIM - Tem gente que já cantou,
também. O Pelé, por exemplo. ELIS REGINA - Até já
gravei música dele. FOLHETIM - Nunca te bateu vontade de
partir pra uma de atriz? ELIS REGINA - Eu tenho muita
vergonha. FOLHETIM - Ué, mas você não tem vergonha de subir no
palco e cantar... ELIS REGINA - Ah, mas eu canto desde
os 12 anos. Por isso eu falei que cantar é só abrir a boca. Agora,
representar tem um barato diferente. Sabe, eu acho que, inclusive, é
uma hora legal de teatro e música se juntarem mais uma vez, pra
ampliar o raio de ação dos dois. Agora, não adianta eu ficar muito
preocupada, porque as três coisas que eu tenho pra fazer de imediato
são: ensaiar, fazer um festival de jazz, na Suíça, e um festival de
jazz, no Japão. FOLHETIM - O que você vai apresentar em
Montreaux já está definido? ELIS REGINA - Ainda não.
Tem três músicas do Milton, uma do Chico e do Gil, tem mais outras
coisas que a gente está vendo aí, mas que não estão definidas.
Parece que tem umas coisas do Gonzaga. FOLHETIM - Você pensa
em fazer alguma coisa como "O Clube da Esquina nº 2"? ELIS
REGINA - Em fevereiro eu e o Milton vamos fazer um disco juntos.
E o trabalho do ano que vem vamos também fazer juntos, no Brasil
todo e no Exterior. FOLHETIM - Como é que foi esse negócio de
gravar o "Bolero de Satã" com o Cauby? ELIS REGINA -
Bom, o Cauby Peixoto é paixão antiga, dos tempos de ser ouvinte da
Rádio Nacional. E eu ouvi essa música do Guinga com Paulo Cesar
Pinheiro. O Guinga me foi apresentado da seguinte forma: eu fui
ouvir as músicas do Nogueira e ele convidou um amigo dele pra tocar
violão. Aí, o João gravou uma fita e pediu ao Guinga: "agora mostra
as tuas músicas prá Elis". Ele me mostrou quatro. E eu tinha duas
pra gravar e gravei essa. A outra está reservada pro outro lado. Uma
chama "Bolero de Satã", e a outra, "Valsa Maldita". Veja a barra do
cara. E eu, desde a hora que estava ouvindo a música, sentia que
faltava alguma coisa. Tinha alguma coisa pra colocar junto com a
minha voz. E eu tinha me fixado na Ângela Maria. Um dia, eu estava
dando uma entrevista, numa rádio aqui de São Paulo, e o Cauby entrou
pelo corredor da rádio. Ia fazer um outro programa, num outro
estúdio. Eu falei: é a peça! É essa figura que eu estava ouvindo e
não tinha me tocado. FOLHETIM - Você tinha cruzado com o Cauby
antes? ELIS REGINA - Já, muitas vezes. Sempre nos
aviões da vida. Aí a gente gravou essa música. E ele me convidou pra
fazer a produção do próximo disco dele. FOLHETIM - Como é que
foi o clima da gravação do "Bolero de Satã"? ELIS REGINA
- Profissional pra chuchu. Ele trabalha muito seriamente. E ele
estava - eu imagino que ele estivesse - emocionado, também. Pelo
lance todo, aquela montoeira de gente jovem sabendo as coisas dele,
maneirismos e tudo, o jeito dele falar - ele estava muito envolvido
pela gente. Acho que ele não pensou que tivesse essa penetração, que
ele faz parte do inconsciente da gente. FOLHETIM - Elis, agora
falando de amenidades, nunca notei que você ligasse prá moda e, de
um tempo pra cá, estou percebendo mudanças... ELIS REGINA
- Bom, tem um detalhe: depois dos 34, a gente tem que dar um
certo trato. FOLHETIM - Você está gostando da moda de hoje,
também. Eu estou sentindo isso, você está amando a década de 40/50,
que está na moda. ELIS REGINA - Eu estou vestida de
minha mãe, está ótimo. Ela tem uma fotografia que tem essas coisas,
e eu estou sentada no colo dela, vestida de cetim com veludo e não
sei o quê. Na verdade, as mulheres muito ativas, participantes,
obrigatoriamente têm que ser um pouco masculinas, também. O que é
uma defesa prá gente. Porque você passa oitenta por cento do tempo
convivendo com homens. Então, começa a transar muita calça Lee,
tamanquinho, camisa, camiseta, colarzinho, sem chamar muito a
atenção, que é pra não sofrer, também, as consequências de estar
muito arrumadinha no meio da homarada. FOLHETIM - Muita
bandeira. ELIS REGINA - Sabe, um pouco assim medo de
levar um chega pra cá e um bizu no pé do ouvido e ter que tomar uma
atitude. Sei lá. Ou então, por outro lado, as intelectualidades da
vida dizerem "aí, ataviada". "Credo, que nojo." "Olha que mulher
fresca." Mas eu não tenho nada contra ser fresca, muito ao
contrário, eu fiquei oito anos botando isso pra dentro, até o dia
que eu falei: quer saber? Vou botar as minhas penas de fora um
pouco." FOLHETIM - Agora, e sobre as
feministas? ELIS REGINA - Tem o seguinte: o movimento
feminista procura a emancipação da mulher. Eu fui uma mulher
emancipada aos 14 anos de idade, e pelo meu próprio pai, que de
"chauvinista" tem tudo e talvez por isso tenha me emancipado. Não é
uma boa? Então, eu acho que na minha cabeça está tudo. Eu trabalho.
Sei das dificuldades que uma mulher participante e atuante e que
pensa tem. Quando senta numa mesa pra deliberar, nunca é olhada com
a mesma seriedade. Mas é tudo uma questão de colocação. Podem não te
olhar com seriedade cinco minutos, mas, se a conversa durar duas
horas, daqui a pouco tem que estar falando de igual para igual.
Afinal, qual é a diferença? Se uma coisa foi feita pra encaixar na
outra, é tudo igual. Depois, tem outro lance aí. Eu acho que não
está muito diferente a situação da mulher e a situação do homem,
hoje em dia. Eu não sei porque, de repente sai todo mundo
esbravejando: porque os homens, porque os homens. Esses homens
"chauvinistas", machistas e supercomandados pelo esquema
paternalista foram criados, gerados, alimentados, comandados e
educados por mulheres que aceitavam isso. Então, o cara não tem a
culpa sozinho, sabe? O meu irmão conseguiu dar o pinote quando ele
saiu de casa, porque enquanto ele estava dentro de casa ele era um
saco. Ele era o meu pai tudo de novo. Casou com uma mulher com a
cabecinha toda certa, e ele troca fralda, e não se sente diminuído
por isso. Eles dividem as responsabilidades da casa, do trabalho, do
dinheiro, do carro, da moto, de tudo, sabe? Ali é uma comunidade,
não tem homem, não tem mulher. São dois amigos que moram juntos. E
são duas pessoas profundamente solidárias, que é uma coisa que eu
não vejo em 80% dos homens brasileiros, a solidariedade. Sempre o
homem é o que fica mais doente, o resfriado nele pega mais forte.
Mas isso aí é resultado do quê? Da mamãe, da vovó, não é culpa
deles. Mas tem que haver essa mulher chata que a gente é hoje em
dia, pra falar assim: malandro, tu está cansado, mas eu também
trabalhei até agora. Como é que é? Tudo numa boa. Não pode chegar,
pegar uma foice e decapitar o cara só porque ele é homem. Ele é
homem que foi filho de uma mulher. FOLHETIM - Vou fazer uma
pergunta bem idiota. Todo mundo acha que Elis vem de Elizabeth. Mas
seu Elis é Elis mesmo. Como é que foi essa transa? ELIS
REGINA - A minha mãe estava lendo um livro, um romance de amor,
e tinha uma "Miss Elis" e Mr. Elis. E eu acho que era o casal
romântico. E essa "Miss Elis" devia ser assim aquela mulher
maravilhosa, que minha mãe gostaria de ter sido. Ela ficou fascinada
por esse nome. Que não é um nome, é um sobrenome. Quer dizer, eu sou
a Kelly Cristina dos idos de 45. Aí meu pai foi me registrar: às
tais horas, do dia tal, dia 17 de março de 1945, uma criança do sexo
feminino, que terá como nome... ele falou Elis. O cara falou: "não!
Pode parar. Elis não pode". Então ele perguntou por quê? O cara
falou: "porque Elis Carvalho Costa é um nome que pode ser de homem e
pode ser de mulher. O senhor tem que arranjar um outro nome feminino
pra colocar depois desse Elis aí". Aí ele pensou um pouco. Na semana
anterior tinha nascido uma prima, filha de uma irmã dele, que se
chamava Sandra Regina. Não podia ser Elis Sandra, porque ficou
esquisito até no ouvido dele. Aí, Elis Regina. FOLHETIM - Você
acredita na anistia ampla, geral e irrestrita? ELIS REGINA
- Eu acho que, se não derem, vai ficar esquisito. FOLHETIM
- Pra quem? ELIS REGINA - Vai ficar esquisito pra quem
prometeu e não cumpriu. Acho que tem mais é que pintar,
principalmente porque essa questão de crime político é um negócio
muito relativo. Depende do lado vitorioso. O lado vitorioso prega
uma coisa, o que era de oposição pregava outra, e isso é uma
contingência de um determinado momento. FOLHETIM - Você sente
que sua categoria é unida, hoje? ELIS REGINA - Não. Eu
não sinto não. FOLHETIM - Bem, há condições objetivas de que
isso aconteça? ELIS REGINA - Um grupo. Sempre um
grupo. Muito pequeno e muito ativo, do qual fazem parte Aldir Blanc,
João Bosco, Paulo Cesar Pinheiro, Sérgio Ricardo, Gonzaga, Vitor
Martins, Ivan Lins, Milton... FOLHETIM - Seria mais ou menos a
turma que trabalhou em São Bernardo. FOLHETIM - Não
houve a renovação do grupo, do mesmo jeito que não houve uma
renovação na música popular brasileira. ELIS REGINA -
Mas, eu acho que aí é que está. Está no começo da conversa da gente.
Está precisando arejar esse lance todo. Quer dizer, precisa pintar
gente nova, precisam pintar compositores recém-saídos das
universidades. Novos músicos, novos cantores, porque senão vai ser
sempre a gente mesmo. E você vai esperar o quê? Que no Congresso da
UNE o Roberto Carlos fosse cantar em Salvador? E eu falo. Pode
botar, o Roberto Carlos cantar em Salvador, não vai. É mais fácil
ele cantar noutros lugares, mas no Congresso da UNE? Não vai
segurar. Vai cantar em São Bernardo? Não vai. FOLHETIM - É,
mas a gente também está falando de um fundo do baú, quer dizer, é o
mesmo pessoal. ELIS REGINA - Também é o mesmo pessoal.
Eu estou falando. Por quê? Porque desde 1966 as pessoas que fazem
música, que interpretam música, que executam música, são sempre as
mesmas. É o circo do elefantinho que está armado. E em processo de
antropofagia. Alas se entredevoraram, numa flagrante e evidente e
palpável luta pelo poder. Só. FOLHETIM - Você já pensou em
fazer um tipo de trabalho mais chegado ao operário? ELIS
REGINA - Já. Já conversei com eles todos, estão só esperando a
confusão das greves e intervenções acabarem prá gente começar a
transar isso. FOLHETIM - Quer dizer, existe um
plano. ELIS REGINA - Existe. FOLHETIM - Mas é do
grupo ou teu? ELIS REGINA - Meu. Mas aí é simples.
Porque o esquema está montado e é só perguntar: João, estás nessa?
Ou Clara, estás nessa? João Nogueira, como é que é? Tem 19
Sindicatos do Interior de São Paulo querendo comprar "shows". Agora,
você tem que encarar um artista que está sabendo que vai trabalhar
por uma bilheteria de 30 cruzeiros por pessoa. FOLHETIM - Mas
o que te altera, e altera no sentido positivo, é que esse público,
com uma distância muito grande em relação a você, vai te impor até
um tipo de repertório, a linguagem musical... ELIS REGINA
- A linguagem da terra. Não é só a linguagem musical. É como é
que essa terra fala. Como é que essa terra se comporta. Como é que
ela reage diante das coisas. O que é que na realidade eles acham da
gente? O que é que eles estão esperando da gente? Qual o tipo de
aproximação que pode ser feito, sem que um seja triturado pelo
outro? FOLHETIM - Como você vê essa apresentação tua em
Montreaux, com Gismonti e com o Hermeto? Você conversou com
eles? ELIS REGINA - Não. Ainda não. Essas
apresentações não são coletivas. Eu não sei se vai pintar o que o
Ciro Monteiro chamava de "hipotenusa final". Agora, os "homens"
estão interessados em botar meus discos lá fora. Isso é cláusula
contratual. A melhor chance pra chegar à Europa é o festival da
Suíça, transmitido pela Eurovisão, imprensa toda reunida, aquelas
coisas. Dizem que o primeiro mercado discográfico do mundo é do
Japão. Eu já tenho todos os discos lá e os homens mandaram me
convidar pra cantar. Eu vou também. Mas não consigo me imaginar de
Pequena Notável de novo, sabe? Estou a fim de transar essa, mas não
é só. Não é a prioridade da minha vida, tanto que, se fosse, eu não
estava pensando mais nos negócios dos sindicatos. Isso é meta pra
daqui a pouco. Inclusive, tem uma outra, que é a do circo. Fazer
circo e sair pela periferia. São duas coisas que eu vou fazer e
muito breve. Já tenho um cara do circo. O cara já está com a lona.
Sujeito que tem os contatos em todos os lugares. E vamos embora.
Quer dizer, o meu lugar é aqui...
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