O PROJETO PEDAGÓGICO DE MACATUBA: A CONSTRUÇÃO DA PRÁTICA A PARTIR DAS RESPOSTAS ÀS PRIMEIRAS QUESTÕES


Zilá A.P.Moura e Silva
Docente do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências - UNESP/Bauru

A necessidade de agilizar mecanismos que viessem a fazer frente às exigências da sociedade que se esboça para o próximo século levou o grupo de profissionais da Rede de Educação Municipal de Macatuba/SP a repensar a Pré-escola e elaborar um Projeto Pedagógico coerente com uma visão contemporânea da criança e de seu desenvolvimento bem como com os ideais da sociedade democrática.
A primeira tarefa que o grupo se propôs foi definir claramente o lugar da pré-escola no âmbito da escolaridade formal, conceituando-a como um espaço de desenvolvimento pleno e não especificamente lugar de aprendizagem sistematizada de conteúdos pré-estabelecidos. Seu papel não é o de preencher carências ou corrigir deficiências, mas de propiciar condições para que as crianças, vindas dos mais diversos ambientes sociais, tivessem igualmente, direito às oportunidades educacionais. A tarefa era não só garantir a extensão quantitativa, mas principalmente oportunizar vivências de qualidade. (SILVA, 1995)
Passando-se a encará-la como um suporte fundamental para o bom desempenho da criança durante os anos de escolaridade do primeiro grau, definiu-se a pré-escola como um espaço de desenvolvimento que deve propiciar vivências desafiadoras, experiências motivadoras e situações altamente estimuladoras, que mobilizem sua curiosidade, seu interesse e sua participação espontânea. Para tanto ela passa a ser entendida como um elemento fundamental para o desenvolvimento da criança em idade pré-escolar em todas as áreas da aprendizagem e do desenvolvimento.
Desta visão surgiu uma proposta pedagógica que, antes de mais nada, exigiu que a professora transformasse sua prática num exercício constante de reflexão que a levasse à compreensão absoluta das razões e conseqüências de sua atuação. (SILVA, 1995)
Alguns aspectos dessa atuação passaram a ser privilegiados e a antiga perspectiva ativista do trabalho pedagógico (que vinha substituindo uma postura paternalista e assistencial) deu lugar a uma busca da excelência baseada principalmente em experiências que garantissem o desenvolvimento da representação lingüística e simbólica, assim como da compreensão progressiva das relações lógico-matemáticas e da socialização da criança.
Conhecendo o aluno, as necessidades e aspirações de sua família, aprofundando-se no estudo das expectativas da sociedade e das possibilidades da criança, a professora fez sua opção metodológica, fundamentada agora na moderna visão construtivista e sócio-interacionista da educação, elaborada a partir de teóricos como PIAGET, VYGOTSKY, WALLON, LOWENFELD, HELLER, GIROUX, FREIRE, BRANDÃO e seus seguidores, além de outros, especialmente Emília FERREIRO, Ana TEBEROSKY e César COLL e a brasileira Sônia KRAMER, que avançaram, com suas pesquisas sobre a aprendizagem, o desenvolvimento e o universo da representação infantil.
A teoria decorrente do trabalho destes pesquisadores, aliada à retomada das idéias de FREINET levaram o grupo a recuperar alguns princípios da aprendizagem natural (1) com que pretende caracterizar o trabalho.
Efetivamente, o que vai apresentado em seguida encampa a concepção de projeto no sentido de pro-jectare, isto é, lançar à frente, idéias e elaborações teóricas que serão transformadas em ação, em propostas e em programações de atividades a serem concretizadas no dia-a-dia da pré-escola Municipal em Macatuba.
Antes de mais nada há que se dizer que, no entender do grupo, o Projeto Pedagógico da Pré-escola de Macatuba se concretiza numa forma de "ação consciente voltada para uma realidade futura" (VALE, 1995:2).
As idéias originalmente desenvolvidas pelo autor aqui citado expressam com exatidão o processo pelo qual passou o quadro de profissionais da educação no Município.
Não sem um confronto entre a necessidade da mudança e a "realidade rebelde"(2) e com a ajuda de especialistas da Universidade foram definidos os aspectos apontados anteriormente e que iriam determinar os rumos de uma nova prática.
Assim, aquelas questões foram exaustivamente discutidas nas reuniões de estudos e formação que tiveram lugar ao longo do tempo e alguns pontos ficaram claramente explicitados. Assim: 1. "Qual é efetivamente a função da pré-escola?"
Decidiu-se definir a pré-escola como: "um espaço de desenvolvimento e educação ao qual terão acesso todas as crianças do Município, garantidos os aspectos de qualidade de ambos os processos".
Isso exigiu medidas tanto do ponto de vista administrativo e pedagógico como também médico e nutricional (3), constituindo-se o Projeto Pedagógico, na verdade, como uma parte extremamente importante de um Programa Social voltado para a melhoria da qualidade de vida no Município.
2. "Quais são seus objetivos?"
Levando em conta que o objetivo maior da pré-escola é "oferecer à criança o passo inicial na construção de seus conhecimentos sistematizados, podendo definir a trilha na busca de sua condição de cidadão" (SP, 1990:11) o eixo do trabalho pedagógico definiu-se como sendo o desenvolvimento da criança, do ponto de vista sócio-afetivo, intelectual e motor, considerados de forma integrada e promovido por meio de um tratamento interdisciplinar dado às atividades e conteúdos de interesse do aprendiz.
Daí foram estabelecidos objetivos como:
a. "construir conhecimentos e esquemas cognitivos que lhe permitam:
"esclarecer uma idéia, perceber uma relação, estabelecer uma conexão, expressar um pensamento, perceber uma semelhança, discordar de um ponto de vista, estimar um resultado, arriscar uma intuição, compreender um processo, transferir um conhecimento, generalizar um conceito, descobrir um erro de lógica, induzir uma idéia, deduzir uma conclusão, associar um padrão (...)"(4)
. desenvolver sua capacidade de observar e distinguir com precisão os objetos, seus atributos, propriedades e relações; (5)
. dominar as noções de espaço, tempo e suas interações;
. vivenciar situações em que possa problematizar a realidade, formular hipóteses, analisar dados, estabelecer e criticar conclusões;
. situar-se na realidade física e social, utilizando seus recursos pessoais;
. enriquecer seus conhecimentos através da experimentação e da aprendizagem do real;
. desenvolver sua capacidade de ação e reflexão, atuando com autonomia e disciplina dentro do espaço social, generalizando os conceitos aprendidos e transformando sua prática social.
Pretensioso aparentemente, o Projeto decidiu para isso:
- Reavaliar as rotinas das salas de aula tentando repensar a linha pedagógica que norteia o trabalho até agora realizado.
- Desenvolver planos de trabalho plurianuais para ajustar a atividade pedagógica das escolas.
- Propiciar condições para aperfeiçoamento e atualização dos professores para que possam ajustar-se à dinâmica exigida pelo trabalho pedagógico.
- Garantir condições de trabalho que permitam a necessária flexibilidade curricular.
- Propiciar espaço de debate com a comunidade para que esta possa colaborar para o aperfeiçoamento do processo.
- Propiciar condições para a retomada da reflexão sobre valores como cidadania, solidariedade, responsabilidade, participação etc., voltados para uma possível reorganização do espaço escolar a curto prazo e do espaço social da comunidade a médio e longo prazos.
3. "Que tipo de aluno a escola abriga?"
A pré-escola atende crianças de todos os pontos do Município, em idade de 3 a 6 anos, dos mais diversos extratos sociais, com experiências de vida diversificadas e com necessidades muito particulares, seja sob o aspecto social, econômico ou cultural.
4. "Que tipo de aluno a escola deseja ter?"
Criança saudável, disciplinada (6), autônoma e responsável. Cidadão crítico e cooperativo.
5. Quais as necessidades e aspirações das famílias e da comunidade?
Melhores condições de vida para seus filhos.
6. O que estas famílias e a comunidade esperam da escola?
Uma escola de qualidade que promova o pleno desenvolvimento da criança, facilitando seu acesso ao mundo da leitura e da escrita.
7. Que recursos se oferecem para que a escola possa realmente cumprir sua função?
Ao lado dos recursos materiais que se fizeram necessários, o Projeto Pedagógico prevê a atualização continuada dos profissionais que nela atuam, seja do ponto de vista pedagógico ou cultural, para que possam fazer frente às mudanças que a sociedade enfrenta no momento presente e no futuro.
8. Do ponto de vista pedagógico os recursos disponíveis são propícios para a efetivação das mudanças? Quais ajustes devem ser providenciados? Que mudanças devem ocorrer para que a escola atenda às aspirações e necessidades da comunidade?
A atualização do corpo docente foi acompanhada da aquisição de biblioteca especializada e de materiais didáticos, bem como da introdução de medidas para atendimento do escolar e de suas famílias, como uma forma de garantir e valorizar o cidadão.
Estabeleceram-se então as metas que foram priorizadas conforme as necessidades do Serviço de Educação pré-escolar e de cada Escola em particular.
Dentre as metas estabelecidas devem ser destacadas as que efetivamente foram atingidas:
- Diagnóstico das reais necessidades de ajuste no que se refere aos aspectos pedagógicos do trabalho.
- Opção por uma linha pedagógica que pudesse dar respaldo às buscas e ansiedades dos profissionais e às expectativas das famílias e da Diretoria de Educação.
- Definição de um modelo pedagógico e sua fundamentação teórica.
- Recomposição das classes quanto ao número de alunos e espaço físico a ser utilizado, levando em conta também o nível a que se refere.
- Atualização dos professores quanto à teoria e à prática dela decorrente.
- Treinamento de professores, garantindo o preparo técnico inicial.
- Acompanhamento sistematizado do trabalho dos professores ao longo do desenvolvimento do Projeto através de:
* reuniões
* seminários
* cursos
* atividades de troca de experiências.
- Acompanhamento das ações práticas.
- Avaliação dos resultados ao longo do Projeto.
- Efetivação de necessários ajustes.
A opção por uma linha pedagógica e a definição da teoria que a fundamenta foi garantida através de reuniões de estudo entre professores e coordenadores da pré-escola nas quais foram discutidas especialmente as questões pedagógicas decorrentes e causadoras dos maiores problemas enfrentados pelos alunos em particular e pela sociedade como um todo.
Optou-se por fundamentar o trabalho nos princípios construtivistas e sócio interacionistas, procurando orientar o processo de forma que os professores encontrassem apoio em profissionais do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da UNESP- Bauru e outros especialistas com larga experiência pedagógica em classes de pré-escola e 1º grau.
Todas as ações trataram de considerar a avaliação como um aspecto prioritário. A cada reunião ou encontro foram destacados os aspectos positivos e mudanças ocorridas na prática que tenham levado à aprendizagem efetiva e ao melhor desempenho das crianças no que diz respeito à alfabetização como um processo abrangente.
Foi proposta uma Bibliografia Básica para início do processo de atualização dos professores(7) ao qual foi acrescentado um número aproximado de 220 títulos, colocados à disposição tanto no Setor de Educação como na Biblioteca do Município(8).
Alguns conteúdos foram privilegiados nos estudos e discussões do grupo, no sentido de atender algumas necessidades imediatas de atualização:
- Arte, ciência e linguagem.
- Psicomotricidade: teoria e prática
- Educação Física na pré-escola
- Alfabetização: prontidão ou construção.
- Criatividade: exercício ou dom.
- Teorias do desenvolvimento e da aprendizagem e os modelos de alfabetização.
- Lingüística, sociolingüística e alfabetização.
- A responsabilidade social do professor da pré-escola.
- A formação do professor: um projeto de educação continuada.
- A matemática na pré-escola
- O ensino de Ciências, História e Geografia. Noções de espaço e de tempo.
- Os diversos conteúdos e sua relação com os processos de conhecimento.
- O Construtivismo como "ferramenta" de trabalho do professor.
- As experiências bem sucedidas e sua fundamentação teórica.
- Outros.
Para atender a estas necessidades emergenciais foram convidados professores das Universidades (UNESP/USC) e professores da Rede Pública com renomada experiência para desenvolverem, juntamente com as professoras, oficinas de estudo, grupos de discussão etc.
Entre idas e vindas, num processo crescente de amadurecimento é possível afirmar que nasceu o Projeto Pedagógico da Pré-escola do Município de Macatuba/SP.
Alguns aspectos da cultura escolar e do conhecimento pedagógico passaram a se constituir em preceitos que doravante dirigem a atividade na pré- escola.
Assim, atualmente, no planejamento do trabalho se leva em conta:
1."... é imprescindível conhecer como ocorre a aquisição do conhecimento pela criança, isto é, quais são os passos na construção desse conhecimento." (SE/SP, 1990:9)
2."O conhecimento se dá num processo dinâmico a partir das interações indissociáveis da criança com o meio físico e social. O meio contribui estimulando a criança com objetos e desafios; a criança, por sua vez, não responde passivamente a esses estímulos. Ela relaciona as informações entre si, construindo sistemas de classificação, seriação e assim por diante, organizando-as de formas diferentes que lhe permitam a compreensão de tudo o que o meio pode lhe fornecer. Isto significa que, construindo a realidade a mente se organiza e, organizando-se, permite a compreensão desta realidade." (id. p.10)
3. "... as interações das crianças entre si e das crianças com o professor devem assentar-se numa reciprocidade afetiva e intelectual, ou seja, num contexto de participações que estimula descobertas espontâneas."(id.ibid.)
4. A professora precisa "estar capacitada para identificar os problemas de sua prática, repensar essa mesma prática e buscar soluções, se possível junto ao seu grupo de trabalho, tentando, em conjunto, superar as dificuldades que se apresentam.
Não há respostas prontas para um trabalho dessa natureza. Ele exige uma postura aberta às mudanças e voltada para valores essenciais, sem uma supervalorização da aparência, que é o que vem movendo a prática com o pré-escolar nos últimos anos." (SILVA, 1995:16)
5. "Quando dizemos que a pré-escola tem uma função pedagógica, estamos nos referindo, portanto, a um trabalho que toma a realidade e os conhecimentos infantis como ponto de partida e os amplia, através de atividades que têm um significado concreto para a vida das crianças e que, simultaneamente, asseguram a aquisição de novos conhecimentos. Aqui, como na pré-escola com objetivos em si mesma, a confiança nas possibilidades de as crianças se desenvolverem e a valorização de suas manifestações são indispensáveis. No entanto - e nesse ponto está a grande diferença - tal confiança e valorização redundam num trabalho pré-escolar sistemático e intencional, direcionado à transmissão de novos conhecimento e à garantia de novas aprendizagens. No lugar de um respeito à "cultura local" romântico e não-democrático, entendemos que existe espaço para a construção gradativa do conhecimento que ultrapassa o localismo e pode favorecer o acesso aos conhecimentos da cultura dominante." (KRAMER e outro, in: REDIN, 1988:38)
6. Antes de se preocupar com métodos e conteúdos a pré-escola deve se ocupar da própria criança "para que ela se descubra e se descubra capaz, importante, autoconfiante e segura. Então essa criança, autônoma, começará a crer que seu saber e seu fazer são verdadeiros e ela crescerá na consciência de si mesma e de suas possibilidades. Aqui só há um caminho pedagógico: a pedagogia do concreto, que inclui o conflito, mediada pela atividade significativa onde é privilegiada a expressão infantil." Nessa pré-escola "...os métodos devem ser aqueles que partem da especificidade da infância: a atividade, a ludicidade, a fantasia, a imaginação, a magia em todas as formas de sua infinita possibilidade de expressão centrada na dimensão emocional-afetiva, prioritariamente." (REDIN, 1998:40)
7. "... a escola não é o único lugar onde se processa aprendizagem;
8."... a aprendizagem tem relação com as experiências vividas;
9. A criança aprende quando tem oportunidade de interagir com as pessoas, com as coisas deste mundo e com os fenômenos que nele acontecem. E assim se consolida a aprendizagem.
10. "... nos primeiros anos de vida verificam-se profundas modificações no ser humano, não apenas quanto ao crescimento físico, biológico, no desempenho de cada segmento do seu corpo, mas também em relação à sua capacidade de operar mentalmente. Tais modificações decorrem das condições físicas e de saúde, mas decorrem também das oportunidades de vida e de aprendizagem." (SP/SE, 1990:13)
11. O desenvolvimento cognitivo deve ser parte de um processo de criação de novas relações e desafios que favoreçam diferentes maneiras de perceber a realidade.
12. A criança precisa de limites para sentir-se segura e protegida, precisa de espaço para se sentir livre e agir, acertando ou errando, mas, acima de tudo, precisa ser considerada o agente único de seu próprio desenvolvimento.
13. O desenvolvimento sócio-afetivo depende do respeito ao contexto particular da criança, das relações que consegue desenvolver com os adultos e com outras crianças e tanto será mais consistente quanto tiver como base o afeto, a compreensão, a confiança, o respeito, a facilitação de sua independência e o desenvolvimento de seu senso crítico.
14. Inventando problemas e soluções interessantes a partir de sua própria iniciativa e do conteúdo de suas idéias, ao mesmo tempo em que analisa e avalia os resultados de suas ações a criança toma as rédeas de seu desenvolvimento e alça vôo na direção da vida adulta.
15. A experimentação curiosa, a observação direta e o levantamento de hipóteses podem ajudar a criança nessa tarefa.
16. As noções desenvolvidas em todos os momentos devem ter como ponto de referência a realidade vivida pelo aluno: as pessoas com as quais a criança vive em casa e na escola (relações sociais); local onde ela se movimenta - sua casa, a rua, o bairro, a escola e outros (espaço); os objetos com os quais a criança tem contato, inclusive a TV que lhe mostra o mundo sob outros ângulos e pode suscitar questionamentos sobre vários assuntos (relações com o mundo). (SILVA, 1995:38)
17. A noção de tempo deve ser elaborada através da vivência intuitiva do tempo. Medição e contagem (hora, dia, semana, mês, ano), os diferentes períodos do dia (manhã, tarde, noite); o ontem, o hoje e o amanhã passam a ser desenvolvidos de forma sistemática, possibilitando aquisições que vão se consolidando progressivamente até permitir recuos a um passado mais distante e hipóteses sobre o futuro. (Id. ibid.)
18. O espaço social também deverá ser compreendido a partir de reflexões sobre a realidade em que a criança vive, propiciando a compreensão do espaço produzido pela sociedade, suas contradições e desigualdades, dos fatos noticiados pelos meios de comunicação (acidentes nucleares, descobertas científicas, eleições, questões indígenas, mudanças econômicas, escândalos políticos etc.) sempre que a criança manifestar interesse.
19. Toda criança é capaz de aprender, respeitados seu tempo e seu ritmo.
20. O conhecimento se dá num processo dinâmico a partir das interações entre a criança e seu meio, considerando aí o professor.
21. A aprendizagem á interdisciplinar.
22. A alfabetização não se limita no tempo.
23. Educar é projetar; projetar é planejar; planejar é fazer previsões.(9)
24. O professor não é um mero executor do projeto, mas seu autor/mentor, executor e avaliador.
25. O professor não é apenas usuário do conhecimento, mas lida com o conhecimento no nível metacognitivo. Suas ações se exercem com o conhecimento mas principalmente sobre o conhecimento. Ele consegue formular problemas, estabelecer relações, analisar, abstrair e categorizar.(10)
26. São conteúdos relevantes aqueles que não apenas ajudem as pessoas a compreenderem seu papel na mudança da realidade onde vivem, mas também que lhes forneçam conhecimentos e habilidades para exercerem esse papel. Devem, portanto, permitir a compreensão da realidade, o que implica a capacidade de analisar a sociedade e a cultura em que vive, inserindo-se num contexto mais amplo, percebendo semelhanças e diferenças entre o mundo imediato e outras realidades;
* A participação em um processo de mudança exige habilidades para questionar e propor alternativas, envolvendo, assim, a compreensão de problemas como: desenvolvimento tecnológico, multiculturismo e transnacionalismo.
* Os conteúdos devem ser selecionados e organizados de modo a fortalecer o poder e a autonomia dos grupos que estejam submetidos a qualquer forma de exploração, opressão e discriminação. Um currículo antimarginalização não apenas contém tópicos ou lições sobre os problemas dos grupos oprimidos, mas privilegia, em todo o seu conteúdo e forma, essas questões.
* O processo de seleção e organização dos currículos, em qualquer nível, envolve necessariamente disputas, divergências, negociações, não se constituindo, portanto, em atividade de caráter meramente técnico.
* É importante considerar que, por meio das atividades curriculares se adquirem tanto conhecimentos e habilidades como consciência, disposições e sensibilidades que forjam comportamentos e estruturam a personalidade.
* O processo de seleção e organização de currículos envolve a transformação dos saberes sociais em saberes escolares. As teorias de ensino-aprendizagem e a forma como a escola organiza o tempo e o espaço escolares são elementos estruturantes desse processo.
* O currículo integrado (sem nítidas fronteiras entre as disciplinas) possibilita relações mais democráticas e maior aprofundamento dos conteúdos.(11)
O conhecimento escolar não pode ser reduzido ao conhecimento científico, mas deve lidar também com a questão dos valores morais, éticos e estéticos, assim como à cultura popular.
27. O ser humano é capaz de executar atividades repetitivas, mas é capaz, principalmente, de transformá-la continuamente pelo próprio processo de repetição. Sua atividade é historicamente constituída.
28. O jogo e a brincadeira são situações em que a criança realiza, constrói e se apropria de qualquer tipo de conhecimento, construindo categorias e ampliando conceitos de diversas ordens.(12)
29. Os recursos pedagógicos nunca devem sobrepor-se à busca da própria criança. A pergunta que ela nos faz é que deve nortear nossas escolhas em relação aos recursos e aos conteúdos. (13)
30. Aprender significa abstrair um conteúdo no contexto de algo apresentado como forma. Forma porque as coisas só se apresentam assim, definidas dentro dos limites que, bem ou mal, lhe dão sentido. Mas a forma- ela mesma - só pode ser aprendida como um conteúdo, conteúdo este dependente de outra forma. (14)
31. O tempo e o espaço da sala de aula na pré-escola devem ser organizados de tal forma que as situações escolares estejam adequadas às possibilidades psicomotoras das crianças. "A capacidade de controle do movimento é conquista gradativa e por isso ainda instável" (15)
32. Num enfoque construtivista em que se atribui ao sujeito um papel ativo, o aluno é responsável por seu próprio processo de aprendizagem. (16)
33. Pressupostos da teoria sócio-histórica:
O homem - tomado no sentido genérico - no estágio atual de sua evolução, é o resultado da atividade de trabalho através da qual, ao mesmo tempo em que transforma a natureza para atender as suas necessidades básicas, transforma-se a si mesmo, desenvolvendo funções especificamente humanas (funções mentais e habilidades técnicas)
* Todas as funções psíquicas são de natureza e origem sociais. "Cada função no desenvolvimento cultural da criança aparece duas vezes ou em dois planos. Primeiro aparece no plano social e depois no plano psicológico. Primeiro aparece entre as pessoas, como uma categoria inter-psicológica, e depois no interior da criança, como uma categoria intra-psicológica" (VYGOTSKY, 1981, apud WERTSCH, p.164)
* Toda atividade humana é mediada semioticamente. O sistema de signos não só influencia outras pessoas mas também aquele que o enuncia. Permite a reformulação, a interpretação multíplice., a criação de sentido e, como efeito dela, o erro de interpretação. (...) O signo visa o outro (...) A representação simbólica é uma atividade social. Ela implica negociação e acordo entre sujeitos.(17)
34. A criança pré-escolar deve, gradativamente passar da anomia para a autonomia e para isso deve contar com a ajuda da professora.
35. A cooperação é um conjunto de co-operações... A cooperação é condição necessária para o desenvolvimento da autonomia intelectual.
Procurando conduzir o Projeto de forma coerente, já não nos preocupamos mais em definir um único polo para nortear o planejamento. Qualquer um deles, objetivos, conteúdos e/ou atividades podem ser, nas diversas circunstâncias, os pontos de partida para a reflexão.
Centrando o trabalho de sala de aula em qualquer desses eixos, o importante é que se saiba exatamente o porquê do trabalho. Com isso, o como fazer se torna mais claro a cada dia e a escolha dos conteúdos fica mais fácil de ser determinada.
Sabendo que o aluno vai redescobrir e construir princípios a partir do manuseio de objetos (de conhecimento) e do pensar sobre eles, exercendo um esforço voluntário e desenvolvendo uma necessária auto-disciplina que lhe permita interiorizar as ações entendemos que a aquisição dos conceitos, sua revisão constante, sua confirmação e ampliação decorrem, com certeza, muito mais do método de trabalho desenvolvido pelo aprendiz e da mediação do professor do que propriamente do conteúdo abordado.
Nossa dúvida, entretanto, corria por conta da prática que, como já dissemos, estruturou uma seqüência programática que se repete na maioria das salas de pré-escola, como: a família, a escola, animais, plantas, meios de transporte, o circo, dia das mães, páscoa, carnaval, férias, temas recortados de uma realidade mais ampla, fragmentados, dificultando o estabelecimento de relações e a formação de categorias.Na maior parte dos casos parece que nos esquecemos de que, independentemente das comemorações do calendário (muitas vezes sem nenhum sentido para as crianças), há muitas coisas acontecendo pelo mundo e que, a partir delas podemos estar desafiando cognitivamente este aprendiz do mundo. É interrogando, duvidando, questionando, discutindo e avaliando seu mundo que a criança aprende a conhecê-lo. E não o faz sozinha, mas numa interação constante com os colegas, a professora da classe e a família, que deve ser envolvida nesse processo de crescimento e transformação.
Percebendo as regularidades que definem os sistemas dentro do universo de conhecimento e seus fatos essenciais, a criança vai construindo seus próprios sistemas de referência e aqueles conceitos aos quais nos referimos anteriormente.
Não se trata mais de dividir os conteúdos por área de estudo ou disciplinas, mas de tentar, na busca da interdisciplinaridade ou quem sabe da transdisciplinaridade, perceber as relações que existem entre o conhecimento a ser transmitido e adquirido na pré-escola e a atitude investigadora que deve ser estimulada.
Na tentativa de construir um currículo dinâmico se pretende facilitar o desenvolvimento de "...uma mudança de atitude frente ao problema do conhecimento, uma substituição da concepção fragmentária para a unitária do ser humano."18 Procuramos alguns conceitos unificadores e a criança seria o centro dinâmico da escolha, adequando-se os conteúdos conforme seus interesses e sua faixa etária.
1. A criança, ela mesma
2. A criança e a natureza
3. A criança e a sociedade
Foram estas as categorias escolhidas para dar unidade aos conteúdos a serem trabalhados. Não há nenhuma preocupação com síntese (essa não seria possível), nem relações de subordinação hierárquica, pois todos os conteúdos são importantes e necessários na medida em que, para nossas crianças, a escola é o único espaço onde pode ter contato com o conhecimento. Nossa preocupação é que, numa atitude não refletida, o professor possa vir a simplificar, adaptar, recontextualizar, transformar ou até mutilar esse conhecimento num complicado processo de transposição didática que acaba lidando com o conhecimento dos conteúdos que se conhecem, de forma a reduzi-lo ao saber escolar.
Através destas categorias abrangentes pretendemos integrar temas variados que possam gerar discussões ou ser gerados a partir delas, de conversas rotineiras, pesquisas ou situações do dia-a-dia às quais a professora deverá estar sempre atenta. Nessa integração havemos de respeitar as etapas do desenvolvimento infantil, seus interesses e suas necessidades.
Começar conversando sobre o que é conhecido mas não reduzir a experiência a isso e sim enriquecê-la por meio da mediação através da qual a professora levará a criança a lidar com os porquês, os como, os quando, os quem, os para que, os onde e todas as relações possíveis a partir do antes e do depois, do semelhante e do diferente, do próximo e do distante etc.
Com isso se lida com o mágico, com o faz-de-conta, com as brincadeiras de imitar e, da mesma forma, com as classificações, seriações, quantificações, noções de medida e outras atividades de pensamento necessárias à construção do conhecimento.
Observar, experimentar, visitar, explorar, pesquisar, construir, jogar, modelar, desenhar, escrever, recortar, pintar, conversar, ler, escrever, experimentar, declamar e muitas outras atividades poderão ajudar a sistematizar aquelas práticas e valorizar o conteúdo de uma forma concreta e não artificial.
A criança precisa ser informada e aprender a se informar. O que é melhor para ela agora? Aprender conteúdos ou desenvolver atitudes, uma postura inquiridora e crítica diante de uma realidade social e até mesmo física que é "fabricada" por grupos de interesse e poder? Decidimos pela construção do cidadão autônomo, responsável, crítico e com uma postura ética planetária. Decidimos pela utopia, o que nos apontava para um caminho pleno de tropeços e dificuldades. Mas era necessário começar.
"Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único..." (John Lenon, 1980).
O sonho está apenas começando, mas não admite retorno.

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VALE, José Misael Ferreira do. Projeto Pedagógico como Projeto Coletivo, in: Anais do III Circuito Prograd: "O Projeto Pedagógico de seu curso está sendo construído por você?", 17 de Maio de 1995, São Paulo:Pró Reitoria de Gradução, UNESP, 1995.
VAZQUES, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
WEISZ, Telma. Como se aprende a ler e escrever ou, prontidão, um problema mal colocado. In: São Paulo (Est.) SE/CENP. Revendo a proposta de alfabetização. São Paulo: SE/CENP, 1985.

Notas:
1. Acusam-nos por vezes de não sermos científicos. Com a nossa vasta empresa cooperativa com milhares de laboratórios vivos, nós somos, em Pedagogia, a ala dinâmica e experimental do progresso científico e pensamos, como Bachelard, que "a ciência é a estética da inteligência". (FREINET, Célestin, Ensaio de Psicologia do Sensível 1: aquisição de técnicas construtivas de vida, Coleção Questões, Lisboa: Editorial Presença, 1976, p.8)
2. VALE, id.ibid.
3. Ver Projeto Self Service, da Merenda Escolar.
4. Ana Maria POPPOVIC, Em defesa da Pré-escola, Cadernos de Pesquisa 50:53-57, Agosto, 1984, in: Zilma M.Ramos de OLIVEIRA, Ciranda, Faz-de-conta e companhia: reflexões acerca da formação de professores para a pré-escola, in: O cotidiano da pré-escola, Série Idéias, nº7, 1992 (pp.17-24)
5. Considere-se aqui "objetos de conhecimento".
6. Entenda-se disciplina: "... a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor aos caprichos individuais, às veleidades desordenadas. significa, enfim, uma regra de vida. Além disso significa a consciência da necessidade livremente aceita, na medida em que é reconhecida como necessária para ale o um organismo social qualquer atinja o fim proposto." conforme VASQUEZ, citado in: VASCONCELLOS, Celso, Disciplina: construção da disciplina consciente em sala de aula e na escola, Cadernos Pedagógicos Libertad, 4, São Paulo:Ed. Salesiana D.Bosco, s/d.
7. Biblioteca da FAE.
8. Aquisições feitas pela Secretaria Municipal de Educação.
9. Marília Martins COELHO. Projeto Pedagógico: vivências e reflexões, in: O projeto pedagógico de seu curso está sendo construído por você, São Paulo: UNESP, 1995. (pp.26-32)
10. M.do Rosário Mortatti MAGNANI. Formação de Professores: currículo como forma de representação de um Projeto, in: Currículo, conhecimento e sociedade, Série Idéias, nº 26, São Paulo:FDE, 1995. (pp.161-173.
11. Lucíola L.C.P.SANTOS e Antonio Flávio MOREIRA. Currículo, questões de seleção e de organização do conhecimento, in: Currículo, conhecimento e sociedade, Série Idéias, nº 26, São Paulo:FDE, 1995. (pp. 47-64)
12. Elvira C.A.S. LIMA. A utilização do jogo na pré-escola, in: O jogo e a construção do conhecimento na pré-escola, Série Idéias, nº 10, São Paulo:FDE, 1992. (pp.24-29)
13. Laura Moreira BARBOZA, Reflexões sobre a prática, in: A pré-escola e a criança, hoje, Série Idéias, nº2, São Paulo:FDE, 1988. (pp.66-68).
14. Lino de MACEDO, Desafios construtivistas ao professor, in: Construtivismo em revista, Série Idéias nº 20, São Paulo:FDE, 1993. (pp.23-27).
15. Izabel GALVÃO. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri WALLON, in: Construtivismo em revista, Série Idéias nº 20, São Paulo:FDE, 1993. (pp. 33-39)
16. Luci Banks LEITE. As interações sociais na perspectiva Piagetiana, in: Construtivismo em revista, Série Idéias nº 20, São Paulo:FDE, 1993. (pp.41-47)
17. Angel PINO. A interação social: perspectiva sócio-histórica, in: Construtivismo em revista, Série Idéias nº 20, São Paulo:FDE, 1993. (pp. 49-58)
18. FAZENDA, Ivani Catarina A. Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro: efetividade ou ideologia. São Paulo:Loyola, 1993, p. 40.


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