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Data: 29/05/2011 13:44:37
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IP: 187.10.239.140

Fichamento e resenha do livro cultura um conceito antropológico de laraia

O livro de Laraia é dividido em duas partes. A primeira delas trata sobre o desenvolvimento do
conceito de cultura, enquanto a segunda, sobre as formas pelas quais a cultura influencia o
comportamento social e diversifica a humanidade.
Logo no início do texto, Laraia aponta dois dos maiores equívocos que rondavam – e, poder-se-ia
dizer, ainda rondam – o conceito de cultura em Antropologia: os determinismos geográficos e
biológicos. Tais teses, hoje abandonadas pela grande maioria dos antropólogos e cientistas sociais,
sustentam que as características geográficas ou biológicas – leia-se raciais ou étnicas – seriam
responsáveis pelas diferenças culturais entre os diversos povos. Laraia apresenta uma série de
colocações que desmentem tais teses, como por exemplo, o argumento de que existem diferenças
culturais significativas em relação a povos estabelecidos em condições geográficas similares. Um
exemplo de concepção pautada no determinismo geográfico é aquela que considera o clima como
um elemento determinante do progresso de um povo – enquanto povos residentes em climas frios
seriam mais suscetíveis ao progresso, aqueles residentes em climas quentes estariam em condição
desfavorável em função do calor que os tornaria preguiçosos e passionais. O raciocínio do
determinismo biológico funciona da mesma maneira: as diferenças culturais seriam explicadas em
função da genética de cada povo. Neste sentido, Laraia cita muito pertinentemente uma declaração
da Unesco, datada de 1950 - e portanto, após o genocídio praticado pelo nazismo em direção
àqueles que seriam considerados geneticamente inferiores – a fim de sustentar que as diferenças
entre os povos se deve á história cultural de cada grupo, e não da sua genética. Daí que “o
comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo de chamamos de
endoculturação” . A endoculturação seria o processo de diferenciação entre os povos, incorrendo na
formação de culturas diferentes.
A seguir, o autor mostra como foi surgindo e sendo delineado o conceito de cultura – desde os
antecedentes históricos da definição do conceito, como Locke que postulava a mente humana como
“tabula rasa”, passando pela definição clássica de Tylor, a primeira definição de cultura do ponto de
vista antropológico, ainda com uma perspectiva evolucionista segundo a qual haveria uma “escala
de civilização” de onde se definiria o progresso cultural. Tal perspectiva foi reproduzida na
Antropologia com grande ênfase, graças à influência dos estudos de Charles Darwin, em A origem
das espécies. O evolucionismo começa a ser superado a partir dos estudos do alemão Franz Boas,
que, radicado nos EUA, desenvolve o Particularismo Histórico (ou Escola Cultural Americana),
“segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos
históricos que enfrentou” . O antropólogo americano Kroeber complementa esta definição,
afirmando que cada cultura é o meio de adaptação do homem em relação aos diversos ambientes
ecológicos, de modo que não é o aparato biológico que determina a cultura; ao contrário, a
adaptação é que exige mudanças em seu “equipamento superorgânico”. Laraia volta a este ponto
mais à frente, quando trata da questão de como a cultura influencia o aparato biológico humano.
O autor também chama atenção para o fato de que o surgimento da cultura depende de um sistema
articulado de comunicação, sem o qual seria impossível a transmissão cultural, considerando que a
cultura é um processo de acúmulo de experiências diversas transmitidas pela comunicação.
A seguir, o autor discorre sobre as origens da cultura, apresentando algumas breves explicações de
paleontologia humana, que destacam o desenvolvimento do bipedismo, o da habilidade manual e do
cérebro como condições sine qua non para o surgimento da cultura. Também ganham enlevo as
teses do antropólogo francês Lévi-Strauss, para quem a cultura surge com a primeira norma – a
proibição do incesto – e do americano Leslie White, que associa a cultura à capacidade
especificamente humana de gerar símbolos. Laraia também chama a atenção para o fato de que
algumas destas teorias parecem supor que a cultura teria surgido de forma súbita, o que constitui
um ponto de crítica para o autor, pois “a natureza não age por saltos” , o que leva Laraia a concluir,
em seu texto, que a cultura se desenvolve gradual e ao mesmo tempo simultaneamente ao
desenvolvimento do equipamento biológico.
Ao fim da primeira parte do livro, Laraia expõe algumas das mais importantes teorias modernas
sobre a cultura, com base no artigo Theories of Culture, do antropólogo americano Roger Keesing.
Este artigo divide as concepções de cultura em dois grupos: as que a consideram como um sistema
adaptativo (linha evolucionista), e as teorias idealistas sobre a cultura, divididas em três outros
grupos. O primeiro deles é aquele que considera a cultura como um sistema cognitivo (antropologia
cognitiva); o segundo como um sistema estruturalista (caso de Lévi-Estrauss) e o terceiro, como um
sistema simbólico (tendência esta desenvolvida nos EUA, especialmente por Geertz e Schneider).]
Na segunda parte do livro, Laraia se dispõe a mostrar, de início, como a cultura condiciona a visão
do mundo do homem. Para o autor, “o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e
valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim
produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado de uma ação de uma determinada cultura” .
Laraia nos fornece um exemplo simples, mas muito eficaz, para ilustrar esta perspectiva – o riso.
Sujeitos de diferentes culturas riem de coisas distintas e por razões distintas. Um índio Kaapor pode
rir de susto; os japoneses por vezes riem por etiqueta; os americanos riem de comédia pastelão
etc. Da mesma forma que o riso, o uso que se faz do corpo também depende da cultura, como
sugere o autor ao citar o artigo de Marcel Mauss, Noção de Técnica Corporal. Dentre os exemplos,
destaca-se a diversidade gastronômica humana, de onde decorre que alimentos considerados
saborosos e requintados em uma cultura podem despertar repulsa em outras. A partir desta idéia de
“repulsa ao que soa estranho”, o autor chama a atenção par uma tendência etnocêntrica, a qual
consiste, em termos gerais, em considerar cada um o modo de viver da sua cultura como superior
aos demais.
Em seguida, Laraia retoma o tema das influências da cultura sobre o biológico, usando como
exemplo os índios Kaapor, que crêem que a visão de um fantasma é um sinal de morte – e o crêem
de forma tão veemente que os índios chegam a morrer. A influência da cultura sobre o organismo
também se evidencia no surgimento de doenças psicossomáticas, ou na eficácia do conhecido
“efeito placebo”.
Laraia coloca a seguir que os indivíduos participam diferentemente de cada cultura. O grau de
participação de cada um numa cultura depende de inúmeros fatores, como idade, sexo, posição
social etc. O autor fornece vários destes casos, como por exemplo, o estabelecimento de uma idade
mínima para o voto ou para o casamento. Neste sentido, destaca também a importância de cada um
conhecer minimamente o sistema cultural no qual está inserido. È a partir destes sistemas que as
pessoas sabem como agir, o que é lícito fazer ou não etc, de modo a se enquadrarem socialmente.
Laraia enfatiza também que toda cultura possui uma lógica própria, ou seja, não é possível deslocar
a lógica de um dado sistema cultural para outro, do mesmo modo que um fato cultural apreende seu
sentido apenas na configuração que lhe é própria, pois “a coerência de um hábito cultural somente
pode ser analisada a partir do sistema a que pertence” . Assim, a análise de uma outra cultura
requer um distanciamento da “cultura própria”, a fim de que as referências da última não sirvam de
critério para as primeiras.
Ao fim do livro, Laraia expõe um último ponto: a cultura é dinâmica, de modo que nenhuma
sociedade é estática – mesmo que o ritma de mudança de determinadas sociedades seja menos
acelerado que de outras. Existiriam também dois padrões de mudanças – o da dinâmica que se
efetua a partir do próprio sistema cultural e o que resulta do contato com uma outra cultura. Este
último é o que se dá de forma mais atuante na maior parte das sociedades, recebendo maior
atenção da Antropologia. Entender a dinâmica de um sistema cultural “é importante para atenuar o
choque entre gerações e evitar comportamentos preconceituosos ”.
Finda a leitura deste ótimo livro, nota-se que ele cumpre com louvor a proposta do autor, que é a de
iniciar os interessados ao estudo da cultura. O texto de Laraia é de linguagem simples, acessível,
mas nem por isso deixa de ser sofisticado e completo, em função não somente da riqueza de
exemplos e citações, mas também por abordar algumas das questões mais significativas em torno
da problemática sobre a cultura com grande eficácia e sensibilidade. Leitura recomendada não
apenas aos estudantes de Ciências Sociais, mas para qualquer pessoa interessada em avançar seus
conhecimentos sobre este objeto de estudo tão rico e complexo, que é a cultura.

Em resposta a:

Por favor preciso com urgência do fichamento e da resenha do livro de Laraia "Cultura um conceito antropológico." Obrigada....(ver)

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